Depois da serra, não há mais terra.

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Ontem, foi um dia em grande… se já tinha adjectivado algum dos dias anteriores como sendo “em grande”, ou “o melhor dia de viagem”, fi-lo apenas por ignorância. Ontem é que foi mesmo. A sério!

Acordei no parque de Campismo de Odeceixe, que por sinal tem muito boas condições (tudo novinho), e do qual eu era o único utilizador, o que é uma coisa que não me desagrada de todo. Fiz café e depois andei por ali a cirandar e a arrumar os tarecos até estar pronto para me fazer ao caminho. Já o Humberto me tinha avisado que para sair dali teria de enfrentar uma subida que me faria ter saudades da de Miraflores.

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Algo me dizia que não seria bem assim, logo para começar, no café de São Miguel, o rádio começou a tocar Good Vibrations, dos Beach Boys, como é que algo poderia correr mal?

Fiz essa subida e a descida a seguir, e mais outra, e mais outra, e outra… algo que se aprende à nossa própria custa é a dosear o esforço e ainda não encontrei  nenhuma subida que não oferecesse a seguir, como recompensa, uma descida que é sempre um alívio e um prazer enorme. O contrário também é verdade e suponho que isto se aplique a tudo na vida.

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(Acabo de me recordar de que para Portugal, enquanto nação, o percurso actual parece ser uma subida imensa, só que, em vez de a seguir haver uma descida, existe, ao invés, uma queda)

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Parei no Rogil (já sem corta vento nem boné) para comprar pão e fiquei admirado. O que há mais de  vinte anos era uma modesta padaria é agora um estabelecimento moderno sem lugar a balcões de mármore. Seja como for, o pão continua do melhor e ainda tem umas empadas de espinafres e cogumelos que são de se lhe tirar o chapéu.

E depois fui andando, passei Aljezur sem parar na vila, tampouco me deixei tentar pelo Vale da Telha ou pela Arrifana, fui parando aqui e ali, cruzei-me com mais um casal a viajar do mesmo modo que eu, eram alemães e novamente trocámos saudações e sorrisos, eles a descer e eu a subir.

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É um percurso que recomendo vivamente e que acho que está ao alcance de qualquer pessoa com o mínimo de preparação física. Como dizia o cego:  isto só visto, contado não tem graça nenhuma.

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Dum momento para o outro, suponho que no Parque Eólico da Lagoa Funda, deixa de se estar rodeado pela mata e entra-se numa paisagem bonita mas agreste; sem árvores, só estevas, tojos, arbustos e um cheiro muito particular, misturado com o vento onde já cheira a mar.

De súbito, eis o Atlântico à minha frente, o fim da serra e da terra.

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Decidi ir para o parque de Campismo da Orbitur, entre Sagres e o Cabo de São Vicente, e foi uma excelente escolha.

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Logo à entrada um pormenor: folhas de papel afixadas com a previsão meteorológica do Windguru.com e do IPMA. Estava quase vazio e, como em muitos, os serviços estavam reduzidos ao mínimo. No entanto, na recepção pode-se beber café e existem produtos indispensáveis à venda, nestes últimos optei, claro, pelo mais premente.

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As ervilhas com chouriço alentejano foram do melhor. Enquanto as ervilhas apuravam naquele meu fiel fogão, um casal de holandeses que já me tinham cumprimentado discretamente, veio falar comigo. Falaram-me em holandês, convictos de que se tratava de um compatriota e, após esclarecermos esse ponto, mostraram-se espantados. Foram para aí quinze minutos de conversa muito agradável. Estavam muito interessados na minha forma de viajar e queriam saber se era muito difícil. Depois de falar sobre mim, perguntei-lhes o usual. Estavam a adorar as pessoas e a comida. Vinham horrorizados com a costa sul de Espanha. Tinham estado em Portimão e, como é óbvio, não tinham gostado. Depois tinham fugido em direcção a Beja, que acharam ser uma cidade muito estragada por via de edifícios novos e muito feios, já Évora consideraram-na uma cidade lindíssima. Depois desceram a costa Alentejana até Sagres, no mesmo percurso que eu, e aí ficaram deliciados.

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A senhora, já reformada, parecia uma criança feliz ao falar sobre as aves, principalmente as cegonhas, que ela uma vez tinha visto na televisão, e o marido, que falava pior o inglês, sorria muito e confirmava vigorosamente acenando com a cabeça. Foi um momento muito engraçado e durou, ervilhisticamente falando, o tempo certo. Partiram hoje rumo a Portalegre e seguiriam para o nordeste transmontano.

E eu, depois duma, mais uma, noite muito bem dormida, bebi café e fui andar de bicicleta (sem carga) até ao Cabo de São Vicente.

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Exceptuando chegar lá e ouvir, num rádio aos gritos, o discurso desse infeliz que é ministro das Finanças, foi mesmo muito bom.

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É uma zona tão especial que andei por ali até entortar o caminho… (nem sei como é que isto aconteceu)

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E no regresso, vim a admirar aquilo a que nós, Portugueses, chamamos uma ciclovia. Espero que estes lorpas gordos e luzidios que nos governam não tenham apresentado isto a ninguém como tal…

Apresento-vos o início da Eurovelo 1
2013-03-14 09.59.24…e depois segue assim, imponente e segura, até parte do caminho para Vila do Bispo

2013-03-14 14.28.17E depois lá se convence da parvoíce que é, e desaparece simplesmente. Mas antes, nesta obra de arte, que é três em uma: ciclovia, passeio e berma, lá acabei por empenar a roda traseira que espero reparar amanhã em Lagos.

Acabei por vir aterrar ao parque de campismo Turiscampo, numa atitude algo irreflectida que me custa dezoito euros para passar a noite, mais do dobro do mais caro parque que experimentei até agora. Isso explica os equipamentos de luxo; balneários impecáveis, com sabonete liquido e papel higiénico, água quente em todas as torneiras, duche para animais de estimação, carrinhos de golfe, etc, etc. A proximidade da estrada, EN125, com muito trânsito e o desenho do parque, todo loteado ao pormenor fazem com esteja aflito para me raspar para o interior.

Ah, este pode ser considerado um ponto forte deste parque…

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2 Responses to “Depois da serra, não há mais terra.”

  1. orieuglas Says:

    Grande Marinheiro, estava a ler o blog e ao mesmo tempo parecia que era “transportado” para o meu local favorito para estar de férias!!! Não te esqueças da Adega…belos bifes ! A foto não estava torcida, era do vinho!!!Não te esqueças de beber bastante…água. Continuação de um bom passeio, boa noite!

  2. Humberto Says:

    Eu não disse que o melhor livro dessa viagem era o das páginas em branco?
    É fixe ler-te pá!

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