Marinheiros em terra e a pedais

Até ontem de manhã, ter deixado Sagres era para mim considerado um erro; não só tinha empenado uma roda (um raio que se partiu, raios o partam), como ainda tinha pernoitado num parque de campismo caro, que apesar das excelentes condições não era nada do meu agrado.

A seguir aos cerimoniais do café e do arrumar dos tarecos, lá me fiz ao caminho até Lagos na esperança de reparar a roda e partir as trombas a um bife e um jarro de vinho na Adega da Marina.

Não foi bem assim… foi muitas vezes melhor.

O fulano da loja que encontrei, alugava bicicletas e motorizadas e após lhe ter exposto o meu problema e pedido ajuda, foi pronto a despachar-me para Portimão. Teria assim de fazer mais um percurso com a roda naquele enervante estado e teria de esquecer o bife.

Lá me resignei e fiz-me ao caminho, mas, na última rotunda, decidi voltar atrás e tentar resolver a coisa, parecia-me impossível não haver na cidade quem conseguisse reparar uma roda.

Indicaram-me uma pequena oficina, numa pequena rua, algures no centro. É claro que não encontrei a loja, mas, num largo estava uma bicicleta com um atrelado, nada de moderno, uma coisa rudimentar, um pesadelo de aerodinamismo, e junto a ela estava um homem louro e um cão grande e negro. O homem sorriu-me e gritou-me: “Amigo”! Fui ter com ele, conversámos um bocado e expliquei-lhe o meu problema.

“Let’s go”, exclamou ele levantando-se com agilidade, notava-se bem que estava feliz por poder ser útil. Falou-me de um excelente senhor português que ele conhecia e que, generosamente, lhe tratou da bicicleta sem lhe cobrar nada. Gosto quando os estrangeiros dizem que Portugal é muito bonito, mas quando me falam dos meus compatriotas de uma forma tão elogiosa como o Bernard fez em relação a este homem e a algumas outras pessoas, GNR e PSP incluídas, é então que sinto um verdadeiro orgulho.

Lá seguiu o trio, ele, o cão e eu, pensando no que me estaria reservado mas disposto a confiar na sorte. O nosso curto passeio terminou junto à loja onde eu já tinha estado. Começa o circo, pensei eu. Mas não, não houve circo. mesmo ao lado da loja, existia outra loja de aluguer de bicicletas chamada Passeios do Sudoeste. Dela vinha um homem a sair que o meu mais recente amigo chamou, cumprimentaram-se com amizade e passado uns segundos já eu expunha o meu problema ao senhor Valter Domingos, que apesar de estar de saída, em cinco ou dez minutos me reparou a roda (sem ser possível substituir o raio) e me contou que também ele é adepto destas cenas a pedais e de dar uns valentes passeios.

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Não me cobrou nada, desejou-me uma excelente viagem e foi tratar dos seus assuntos.

Fiquei então ali, imensamente agradecido, contente da vida e disposto a ir comer o bife e convidar o meu amigo para almoçar comigo. Não me pareceu muito disposto a isso, começou logo por salientar que não se podia dar a esse luxo, mas quando lhe disse que fazia questão , lá acedeu. Mas na Adega só nos serviriam no interior, argumentando que não tinham pessoal para a esplanada. Acabamos por abandonar a adega e ir a um restaurante que o Bernard, é esse o nome dele, afiançou ter muito bom ambiente. E lá fomos.

O Bernard é alemão, educado, suponho que de uma família bem estabelecida em Hamburgo e desde novo que sempre gostou de viajar, fê-lo inicialmente como marinheiro em navios de pesca e, mais tarde, em gigantescos navios porta-contentores. Casou, teve um filho na terra natal e, passados cinco anos e um problema de coração devido ao tabaco e ao stress, decidiu que não queria viver uma vida convencional na Alemanha e partiu.”To much money power, man…”.

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A descrição das suas viagens e histórias excede em muito o meu tempo e a minha capacidade de escrever, nem falando da sua admirável forma de encarar a vida… toda a Europa, Norte de África, Nova Iorque, Chicago, Detroit, L.A., toda a América Latina excepto Argentina e Perú. Uma nova mulher na Colômbia e duas crianças adoptadas. Equador, México, Guatemala, Panamá, Costa Rica, e por aí fora. Experiências com um xamã, confessa-se católico mas diz que god é dog e chama-lhe Manitou, foi assaltado alguma vezes, esfaqueado uma, fez algumas maluquices quando era novo dos quais não se orgulha, vive de pequenos trabalhos na recolha de metais usados, reparte as moedas que tem com quem precisa mais do que ele, ri quase sempre e sempre numa postura muito franca, muito saudável. Um homem invulgar.

 

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E depois o Chico. em relação a este ainda se torna mais difícil falar. Se alguma vez vi uma relação tão próxima entre uma pessoa e um cão foi entre estes dois seres. Chico (com pronuncia espanhola), é realmente um animal espantoso em todos os aspectos. Muito amistoso, brincalhão, obediente duma forma irreal, e irradiando simpatia e inteligência em todos os seus negros e ameaçadores quarenta e cinco quilogramas.

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Um par inesquecível que espero receber em Lisboa dentro de dois ou três meses como aquilo que são, dois Senhores.

E almoçamos, bebemos, rimos, fumámos… e entretanto surge um rapaz novo, louro, de rastas no cabelo comprido, a sorrir e a pedir ao Bernard se podia roubar uma batata frita. Estava, claramente, com fome. Era o Janus, um artista de rua, suíço, amigo do Bernard (que é amigo de meia cidade de Lagos) e a quem convidei para a mesa para comer connosco. Fez-se rogado, disse que não podia aceitar e lá fiz um negócio com ele: tocas uma música para nós e a seguir comes e bebes. Lá aceitou e tivemos direito a um excelente Summertime tocado num saxofone. Depois, lá se sentou mas só depois de pedir licença para ir buscar a sua namorada, Julia, romena, que não quis aparecer na fotografia. Dividiram entre ambos um prato de galinha e vegetais, conversamos sobre as nossas terras e sobre o mundo e foi uma tarde em grande.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAQuando terminou, ficamos os três e Bernard perguntou-me se tinha onde ficar. Quando respondi que iria para um parque de campismo, sugeriu que, caso não me importasse e quisesse poupar uns euros, poderia pernoitar no sítio onde ele se costuma acomodar quando vem a Lagos. Para ele o paraíso é em Budens, onde não fuma nem nem bebe, pois segundo ele, tem de cuidar do seu corpo para que possa tomar conta do Chico e continuar a viver “au naturel”.

Jantámos feijões e carne junto ao mar, no abrigo dos pescadores em Lagos, na marina e ali dormimos. Não montei tenda e para colchão tive as redes dos pescadores. Dormi como era suposto e acordei cedo com o cheiro do mar e o olhar carinhoso do Chico perto da minha cara. Que cão espantoso…

Ali pode-se tomar banho e dormir ao ar livre sem que haja problemas, todos conhecem o Bernard e têm por ele grande estima.

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A seguir a ter a bicicleta reparada pelo Sr Valter, tinha escrito o meu número de telefone no passaporte do Bernard e, como nada tinha para lhe oferecer, dei-lhe o lápis que tinha utilizado. Um lápis azul escuro com as constelações. Mais tarde, à noite, veio ter comigo e ofereceu-me o bule que o acompanhava há muito tempo. Fiquei tão sensibilizado e sem jeito que hoje de manhã reuni uma série de objectos que a ele lhe poderiam fazer falta. As pilhas que levava de reserva e que ele apreciou muito, pois as pilhas são caras e ele gosta de ouvir música, uns straps de plástico que podem sempre ser úteis, um púcaro de alumínio, algumas ferramentas, um isqueiro bic novo e com fito enrolada à maneira dos assistente de televisão, uma lata de creme nivea, enfim, coisas úteis a quem anda a viajar nestes moldes. À última da hora lembrei-me que ele tinha sempre dificuldade em encostar a bicicleta às paredes devido ao atrelado, de modo que  desmontei o descanso da minha bicicleta e montei-o na dele. Gostava de lhe poder ter dado mais alguma coisa mas a verdade é que trago pouca coisa e o que trago faz-me, ou pode vir a fazer-me falta.

E depois as despedidas, curtas e bem dispostas. Só o Chico parecia triste com a separação e conseguiu comover-me. Por quatro vezes voltou atrás para me vir tocar na perna com o focinho e olhar para mim ganindo baixinho, depois o Bernard chamava-o e lá ia ele. Mais uma e outra vez: que cão espantoso.

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Agora estou em Alvor, num parque de campismo tranquilo, já jantado e pronto para ir dormir para amanhã tentar fazer a serra até… bem, logo se vê.

Entretanto, há pouco quando fui tomar banho, outra surpresa, uma porca preta andava por ali a passear e a roer pequenos tufos de erva. Por momentos pensei que estava a ver coisas… vem então um senhor muito sorridente e chama em voz alta: “Sofia!” e não é que a p0rca atende ao chamado e vai, bamboleando refegos de gordura, roçar-se toda feliz da vida nas pernas dele?! Claro que não podia deixar de ir dar festas num bicho com tanto de inesperado como de castiço. E estive um bocadinho à conversa com o holandês sorridente que possui uma porca como animal de estimação. Lá diria o Pessa. “e esta, hein?”

 

 

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5 Responses to “Marinheiros em terra e a pedais”

  1. samuelmarques2013 Says:

    Tudo se torna tão simples, quando uma pessoa é tão simples como tu!!

    Não tenho mais nada a dizer!
    Sem palavras Marinheiro…

  2. Marco Marques Says:

    Boas desde mais gostaria de te felicitar pela tua forma de estar na vida…Isto porque quem passa um mês a pedalar a solo sem um destino concreto só pode ser alguém que sabe valorizar a vida com maxima inteligência.

    E confesso…
    Também sou aficionado por viagens de bicicleta da forma que estas a realizar… É algo mágico e de difícil esplicação mas que nos enche muito.

    Já realizei algumas boas aventuras e fico sempre muito entusiasmado pela proxima como se dum miudo trata-se.

    É com maxima atenção que acompanho os teus relatos diarios que por sinal estão muito bem relatados.

    Cumprimentos e claro boa Viagem Camarada

    Marco Marques (Irmão do Samuel)

  3. orieuglas Says:

    Fantásticos dias, já deu para perceber!!! E tudo graças a uma avaria, que, certamente, prometia estragar parte do dia ,e afinal …como se costuma dizer :”há males que vêem por bem!” . De qualquer maneira ficas a dever um bife na Adega!!!Continuação de um bom passeio, que corra tudo bem e ,já sabes…qualquer coisa apita! Um grande abraço

  4. Maria Gomes Says:

    Parabéns por achares a vida “selvagem” tão agradável!
    Poucas pessoas apreciam o quanto belo é viajar assim e confraternizar com quem nos aparece.
    Até dá vontade de gritar como a vida é bela! E eu que tenho viajado doutro modo, creio que essa tua “mania” deve ser uma reminiscência de mim.
    Que continues no trilho da aventura e que sempre tenhas vontade de retribuir tudo ou mais do que recebes.
    Abraço

  5. Ana Sofia Veloso Says:

    És o maior Marinheiro… Resto de boa viagem! beijinhos ana veloso

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