“Sempre Chegamos Onde Nos Esperam”

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O ocaso já se deu e o ar está bem fresco, cheio de cheiros e de ruídos, ambos simultaneamente novos e familiares. Coaxam rãs numa discussão ordenada, aves que desconheço piam, uma tenho a certeza de que se trata de uma coruja ou de um mocho, dado o tom lúgubre, de algures vem o balir de ovelhas, os cães ao longe, e até o som de uma motocicleta surge de vez em quando sem ser ofensivo. O céu é uma bebedeira de estrelas que convida a dormir ao relento, o que a temperatura, em Março, ainda nega.

O parque de campismo do Alvor era aceitável, aliás, confirmando a opinião de um casal canadiano, os parques de campismo em Portugal são muitos e com boas condições. Mas raramente me dão exactamente o que quero, para além do descanso e das infraestruturas. Falta sempre qualquer coisa e eu sei bem o que é… é a sensação que só o campismo selvagem pode oferecer. O isolamento, o silêncio.

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As pessoas no parque do Alvor foram muito simpáticas e pude conhecer uma porca chamada Olivia que é um animal de estimação. Gostava de poder dizer que é inteligente mas disso o único exemplo que pude observar foi afastar-se quando percebeu que eu não lhe ia dar petisco algum. Bonita também não será o termo e a elegância também não lhe calhou na rifa (digo eu, que não sendo porco lá vou fazendo as minhas bacoradas). Enfim, é, pelo menos, asseada.

A clientela de todos os parque que frequentei eram, invariavelmente, holandeses e alemães, alguns ingleses e poucos franceses. E eu. Acho que não vi um português, excepto em São Torpes, que tropeçou numa das espias da minha tenda. Todos são muito simpáticos e é raro alguém passar por mim sem dar uma saudação. Habituei-me facilmente a fazer o mesmo.

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Lá me fiz à pista mais uma vez, sob um excelente dia de Primavera. Tinha algumas dúvidas acerca de como iria correr o dia, já que a distância era razoável e o percurso era maioritariamente serrano. Cheguei a Silves ainda fresco e parei, já a saída da cidade, para beber um café e fumar um cigarro. Passa uma senhora, muito velhinha e curvada, que não pode deixar de dizer bom dia e cruza-se com uma menina que deve ter uns oito ou nove anos. A velhota sai-se com um: – olá, menina. – ao que a pequena responde: olá! – e, apontando para o conjunto de seis pacotes de leite que a senhora transporta, pergunta: – quer ajuda? – e tem como resposta: – não filha, deixa, é muito pesado para ti. – e lá seguem cada uma para seu lado.

Acabo de fumar e de pensar que há muitas coisas diferentes para além da paisagem. E lá vou eu, de calções e com uma camisola às riscas. Ao passar num ajuntamento de casas na serra, dois homens estão junto à estrada, levanto a mão quando passo por eles e, como vou devagar ainda ouço um dizer: “estis é ca sabem toda!”

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Não a sei toda, mas sei que a tirada foi mais fácil do que julgava (não sei porquê, mas pedalar no campo parece ser menos cansativo do que em vias citadinas), e sei também que estão a ser as melhores férias de sempre.

Surge na estrada, a seguir a uma curva, um enorme lagarto a atravessar a estrada, mas quando digo enorme, estou a dizer que da ponta da cauda à cabeça tinha seguramente mais de um metro. Acho que nos assustámos ambos (os dois, porque segundo ouvi do nosso ministro mais ilustre, aquele que anda sempre em busca do conhecimento, pode-se dizer “ambas as três”), eu travei e ele raspou-se em menos de nada.

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Depois lá fui subindo até São Bartolomeu de Messines que é uma cidade muito simpática, cheia de vida, sem um sinal do abandono que se sente nas terras onde o turismo é mais predominante. Tudo aqui parece estar no lugar certo, até o Cabo da GNR que conversa com um homem e abana a cabeça, resignado, ao ver um velhote numa carripana fazer a rua toda fora de mão. Peço-lhe indicações, que se revelarão certas e ainda lhe pergunto se vale a pena o meu destino. Sorri e diz, vá lá que vai gostar. Boa viagem.

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Agora a estrada é o IC1, a estrada antiga que provavelmente todos, ou quase todos, fizemos antes de concluírem a autoestrada. O piso é bom, a paisagem é bonita, e é quase sempre a subir, mas com um ritmo calmo faz-se sem um exagero de cansaço. Tanto assim é que a seguir a ter visto a indicação que procurava ainda fiz mais uma hora a pé, com a bicicleta pela mão, por uma estrada de terra batida que serpenteia pela serra. Mais um sinal, e outro, e outro, e eu sempre admirado com as paisagens e a pensar que isto ainda vai dar asneira.

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Não foi à toa que, após a minha última viagem a Peniche de bicicleta, prometi nunca mais me meter em caminhos não alcatroados.

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Eu cada vez mais suado, a paisagem cada vez mais bonita e, de súbito, a seguir a uma curva e uma subida, eis um cenário de sonho

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e mais um pouco ainda venho a descobrir, como correctivo para o meu pessimismo, que esse cenário é o Parque de Campismo da Quinta de Odelouca. Paro à entrada para vestir a camisola e à distância, alguém que está a cavar me acena, aceno de volta e entro, ao encontro do homem que larga a pá e vem ter comigo, suado, vermelho e sorridente. Como vai sendo habitual, julga-me estrangeiro, mas lá nos apresentamos e fico a saber que ele é holandês e que se chama Humberto. O nome soa-lhe melhor do que o seu nome original, Bert.

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Subimos em direcção à casa onde é a “recepção”, neste caso o alpendre onde me convida a sentar e me pergunta o que quero beber. A seguir, a sua mulher, Thea, muito simpática, vem ter comigo e após conversarmos um bocado, pede-me os documentos e mostra-me as instalações, que são muito boas, simples e de muito bom gosto. Entrega-me ainda um mapa para que eu não me perca na serra se decidir ir passear e um pequeno dossier com informações úteis, muito bem compilado, que terei de devolver à saída.

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Só mais duas caravanas, de holandeses claro, estão no parque. O cenário é tão paradisíaco que contrariamente ao hábito, antes de montar a tenda ou qualquer outra coisa, me deito na erva a fumar o primeiro cigarro em várias horas. Depois de tudo montado vou dar uma volta pela ribeira… A intenção de só ficar uma noite já se desvaneceu.

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A juntar a isto, a simpatia natural destas pessoas. O pormenor de oferecer assento e uma bebida a quem chega, a facilidade do check in e a preocupação em saberem se preciso de alguma coisa, o respeito pela privacidade, o sentido prático e o gosto simples mas muito agradável, fazem deste casal um exemplo de como se deve tratar os clientes, sejam eles um casal numa auto-caravana do último modelo ou um ciclista. Perguntam-me se preciso de electricidade, respondo que apenas preciso de carregar a bateria do meu computador e do telemóvel. Dizem-me que isso não conta, que o posso fazer em qualquer lado. Ontem, em Alvor, paguei um euro por cada aparelho que necessitei de carregar. Não é pelo valor em si, é pelo espírito da coisa, até os autocolantes com o logótipo do parque, que, na minha perspectiva, serviriam para oferecer aos utentes a fim de divulgarem o parque, custam um euro.

Mas isso é lá atrás, aqui o campeonato é outro. Como me disse o Humberto, enquanto me mostrava um álbum de fotografias que demonstra a evolução do parque desde um campo com uma casinha alentejana até aos dias de hoje: “queremos ser uma alternativa, marcar a diferença”.

Da minha parte, fazem-no lindamente e eu tenciono voltar aqui.

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Entretanto o dia de ontem foi de chuva ininterrupta, apenas saí da tenda por breves intervalos em que a chuva parou. Como a minha internet parece não se dar muito bem naquele recanto, acabei por me dedicar a ler e pouco mais.

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E hoje, dia 20, na mesma filosofia das subidas e das consequentes descidas, o dia nasceu quente e apenas com algumas nuvens. Foi um despertar dentro de outro despertar e, a seguir ao café, tive de ir dar uma volta. Não me ocorre higiene maior que isto, passear no campo a seguir a acordar, ir lavar o espírito antes de ir lavar o corpo

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E depois do duche, vestir uma camisa lavada, trincar qualquer coisa, conversar um pouco acerca do belo dia que está com os meus vizinhos e hospedeiros e, a seguir, ir até São Marcos da Serra, comprar umas coisas, encontrar um multibanco, beber a bica e, acima de tudo isto, desfrutar de uma hora de caminho, a pé, até à povoação

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É bom ter um destino e não ter pressa de lá chegar, e assim, calmamente, entretido a ver o que me rodeia e a ouvir o som dos meus passos no chão, como na música Grândola Vila Morena, lá entro em São Marcos da Serra cujo dia se celebra a 25 de Abril.

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Obviamente que as fotografias, num acto de egoísmo meu, fazem por substituir as descrições e impressões que tudo isto me causa e poupam-me tempo que necessito para não fazer nada a não ser deambular. Posso, no entanto, garantir-vos que quem confiar no meu julgamento e vier à Quinta de Odelouca não me tomará por mentiroso.

Até amanhã… ou depois.

PS – A todos a quem este blog agrada e que não se coíbem de o expressar das mais diferentes formas, um grande abraço.

3 Responses to ““Sempre Chegamos Onde Nos Esperam””

  1. luis Says:

    uma experiencia de vida……refresca a mente pois o corpo já foi de vela……uma odisseia de um urso solitario……se a comunidade houve falar em ti………abraços

  2. Maria Gomes Says:

    My dear little sailor,
    Estas tuas descrições enchem-me de rejúbilo, de encanto e até de um pouco de ciúme.
    Alegria por verificar que te emocionas com coisas naturais da vida, como uma paisagem, um diálogo simples mas ao mesmo tempo profundo, de encanto por verificar que afinal temos muito em comum e finalmente um pouco de inveja por não estar também aí, para partilhar tudo isso.
    Essa tua deambulação dava uma boa reportagem para quem quisesse sublinhar as vantagens de andar de bicicleta.
    Para além de descreveres por palavras e fotos o nosso país, é por demais um sinal evidente que se vive muito melhor no campo do que na cidade.
    Continuação de boas férias e aventuras com lagartos, minhocas, porcas e câes.
    Abraço
    Ferdy

  3. orieuglas Says:

    Gostei de falar contigo hoje, mas infelizmente , e apesar do teu desejo de quereres permanecer na Quinta de Odelouca, cabe-me a tarefa de te informar que as férias acabam!!! De certeza que as próximas já estão no teu imaginário. Das fotos, dá para destacar uma em especial, não por ser bonita, bem tirada ou por mostrar o Portugal que temos(e que não conhecemos), mas sim pela “perseguição” que sempre parece que nos segue; a “Rua das Telecomunicações” !!! Chiça, até no “fim do Mundo” levas com isso! Um abraço e continuação de boas férias.

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