Arriba-te e Faz-te à Pista…

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Há já uns dias que a minha bicicleta não se desencostava da oliveira, aliás, desde que cheguei à Quinta de Odelouca e a encostei que nunca mais se moveu.

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Não, não estamos zangados, longe disso, nem me aflige qualquer dor que me impeça de pedalar, o facto é que estes caminhos não são os mais indicados para os meus pneus e, assim como assim, prefiro andar a pé pelos montes só a vadiar ou ir à vila comprar algo necessário.

A noite de anteontem tinha sido bem fresquinha, eufemismo para dizer que quando me levantei o termómetro marcava dois graus negativos e o sol já se adivinhava atrás dos montes a este (faço sempre o possível para que a tenda fique com as duas janelas viradas a este e oeste), pus a água a aquecer para o imprescindível café e fui à casa de banho. Quando voltei já fervia e pude estar a beber café bem quente e a comer pão com queijo de cabra enquanto o sol se vestia para aparecer.

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Tive ainda tempo para ir dar a costumeira volta até ao lago… exceptuando um animal ou outro, que se está a preparar para ir dormir ou que, como eu, acabou de acordar, nada mais bule neste cenário. Não obstante o frio levava os chinelos calçados e os meus pés ficaram inicialmente brancos para depois irem avermelhando, doeram-me até ao joelhos mas é uma dor agradável, semelhante a quando se entra no oceano após estar muito tempo ao sol. Não houve um dia que não fizesse este cerimonial e acho que é facilmente perceptível a razão que me impele.

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Ao nascer do dia nem uma folha se movia mas foi-se levantando vento e as previsões para os próximos dias não eram as melhores.

É um hábito enraizado este de acordar cedo mas que ali ainda se acentuou mais e que me fez encontrar ainda mais sentido ao fazê-lo. A cidade é outra coisa quando se acorda cedo e o campo consegue ser ainda mais o que é, uma infinidade de coisas que geralmente se escondem no sol ou na noite e que só na transição se conseguem testemunhar, como um ouriço cacheiro que tive de fazer muita força para não o agarrar, já que os acho dos bichos mais simpáticos, ou os sapos grandes que preferem estar quietos em vez de mergulharem mal sentem uma ameaça. Houve um deles que teve azar…

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Gostei mesmo muito de estar neste parque de campismo pertencente a holandeses, é um ambiente simples, natural e humano, muito convidativo.

Anteontem, depois de ter estado na aldeia regressei por outro caminho, mais longo e mais selvagem, por momentos até julguei que me tinha perdido e liguei o GPS do telemóvel e ele confirmou-me que ainda estava no trilho certo. Após duas horas e meia a caminhar na serra, descalçando-me para atravessar os pequenos riachos que a chuva dos últimos dias engrossou, acabei por ir dar ao caminho certo.

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E, momentos após ter chegado, Ari, um dos caravanistas que aqui está com a mulher, e que no primeiro dia tinha estado à conversa comigo, veio convidar-me para uma tradicional bebida ao fim do dia, na happy hour, entre as 16:30 e as 18:30 no alpendre da casa. Ali estivemos a conversar e a beber uma cerveja que após a longa caminhada me soube raramente bem.

Conversou-se sobre os países e sobre a Europa e a esta crise que, como uma humidade bolorenta, se consegue infiltrar em tudo. Tal como sucede em Portugal, também na Holanda as pessoas sentem-se algo nervosas com tudo isto, não percebendo o que terão elas feito de errado para terem de se sacrificar. Na Holanda, segundo eles, há uma minoria, com tendência de crescimento, que começa a considerar a UE uma ideia a abandonar, mas a maioria ainda vê nesta união uma coisa muito positiva, não só porque a Holanda já ganhou muito dinheiro devido ao livre trânsito do espaço Schengen mas porque esta união, por muito ineficiente que por vezes seja, já lhes permitiu, a eles e a todos, termos quase um século de paz na Europa. Isto para países como a Holanda e a Bélgica que, cada vez que houve guerras, viram-se entre os dois principais antagonistas, França e Alemanha, tem uma grande importância.

Ari, nome que provém de Adrian, como o Imperador, tem mais ou menos a idade do meu amigo Bernard, e pude constatar que ambos ainda se recordam da fome quando eram crianças e de como só viram bananas e laranjas, por exemplo, quando já eram adolescentes.

Ari é uma pessoa muito simpática, enorme, de barba, se lhe colocássemos uma indumentária vicking não destoaria. Conversámos bastante acerca da bicicleta como meio de transporte. O facto de as crianças holandesas aprenderem a andar de bicicleta logo a seguir a aprenderem a caminhar não é um mito. Contou-me que quando era novo, com a mulher, Ineke, e os dois filhos, atravessou a França de bicicleta e que ainda hoje se recorda de ver o seu filho mais novo, na altura com dez anos, a chorar a meio de uma subida quando os restantes familiares já a tinham ultrapassado. Mais tarde, quando acamparam, e para grande desespero do pai, o puto disse que nunca mais andaria de bicicleta. Hoje, um adulto com trinta e cinco anos, trabalha numa loja de bicicletas e o cicloturismo já o levou a meia Europa, incluindo trechos muito duros como os Alpes ou os Pirinéus.

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Foram duas horas de convívio muito agradáveis, muito leves, e, segundo Ari me tinha confidenciado, Humberto não estava muito contente com a pouca afluência do parque, e, assim, foi engraçado ver como se alegrou quando chegou um casal jovem de carro. Nacionalidade? Holand.

Ainda tive oportunidade de estar um pouco à conversa com um pastor, não o fotografei, é claro, mas para quem conhece, era algo parecido ao grande Tomás Afonso. E vê-lo a lidar com a matilha que o acompanhava foi realmente algo fantástico. Sem se mover do sítio onde estávamos, dava um grito a um cão específico e ele lá ia cumprir a sua função; “vai Peseta, vai! Eh, Preto, vai de volta, olhá gaja… vai! Aí, Princesa, ai!” – e, para minha delícia por razões que apenas alguns compreenderão: “Ah, canzoada dum cabrão!”. E tudo corre ali direitinho.

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Thea disse-me que gostaria de ver mais portugueses acamparem. Eu também.

Eu estive em grande, de tal modo que me comprometi comigo próprio a ir-me embora hoje, sexta-feira, dia 22. É fácil perder a conta aos dias e quanto às notícias… na vila vi o site da SIC Notícias, onde habitualmente me informo e folheei o inevitável Correio da Manhã e a única notícia que realmente me chamou a atenção foi a do fulano que supostamente se perdeu durante uma semana e sobreviveu graças a uma garrafa de vinho. Já me tem acontecido o mesmo mas nunca me perco por uma semana e não arranjo desculpas dessas.

Walden, de Thoreau, foi a escolha acertada para a viagem. As suas considerações assentam neste tipo de deambulação de uma forma perfeita. Acho que deveria ser leitura obrigatória na escola. Aqueles que o consideram um radical não o leram com a devida atenção, em parágrafo algum se advoga o regresso à vida original vivendo em tocas e comendo mirtilhos e o que estiver à mão, é, simplesmente, um alerta para que não ignoremos com arrogância o muito que a natureza tem para oferecer e que não nos entreguemos sem pensar duas vezes ao consumismo. Claro que isto foi escrito no século XIX, só que o passar dos anos não o tornou obsoleto mas sim cada vez mais actual.

Ler os seus pensamentos é encontrar por vezes, muitas vezes, pontos coincidentes com os meus. E relativamente ao jornalismo, negócio das novidades que, convém não esquecer, é o que me proporciona os meios, ainda que modestos, para estas minhas férias e a alguns dos leitores igualmente o meio de subsistência, a sua opinião é digna de ser transcrita:

Se já lemos a respeito de um homem assaltado ou assassinado, ou morto num acidente, ou de uma casa incendiada, ou do naufrágio de um navio, ou a explosão de um vapor, ou de uma vaca atropelada no Caminho de Ferro do Oeste, ou da morte de um cão raivoso, ou de uma nuvem de gafanhotos no Inverno – nunca mais precisaremos de ler a respeito de coisas semelhantes. Basta uma vez. Se a pessoa já se familiarizou com o princípio, que importam os inumeráveis exemplos e aplicações?

Dou por mim a pensar, este homem, que se recusou a pagar impostos por estes serem utilizados em coisas com as quais discordava em absoluto, como a escravatura e a guerra com o México, como reagiria ele nos dias de hoje ao ter, por exemplo, de pagar pela ganância arrogante e expectável dos banqueiros e pela venalidade pomposa e sabuja dos politicos? Num café uma televisão debita o esterco (que lhe chamar?) proveniente da politica, num relance vejo o merdel ervas e só me dá vontade de rir apesar do caso ser mais de chorar. Que figura…

E agora que escrevo já estou confortavelmente sentado numa sala do parque de campismo de Castro Verde. Gosto muito desta terra e, apesar do parque ser modesto em tamanho e árvores, os equipamentos são acima da média. Uma curiosidade é os frequentadores deste parque serem quase todos finlandeses, povo que ainda não tinha encontrado em nenhum parque. Uma curiosidade é o facto de nesta sala de convívio para além de alguns livros em português, a maior parte de livros, revistas e até cd serem em finlandês, tal como os avisos nas instalações estarem escritos em francês e finlandês. Aparentemente são visitas habituais.

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O caminho da Quinta de Odelouca até aqui não foi o que se chama uma pêra doce, a serra do Caldeirão é realmente muito bela de se ver, com o contínuo som de água a correr nos inúmeros ribeiros e riachos, mas uma coisa que ela não é, é amiga dos ciclistas, ainda para mais se estes não tiverem a carga bem arrumada e estiver um vento forte.  Mas uma sanduíche de presunto e uma cerveja preta e o peso já bem distribuído, permitiram-me chegar relativamente fresco, o suficiente, pelo menos, para estar aqui a escrever e ainda ir fazer o jantar.

Pelo caminho tenho ainda tempo, oportunidade e disposição para contribuir para um estudo sobre a semiótica da sinalização de hospedarias em Portugal, esta é realmente especial, tenho pena de não a ter visto iluminada…

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Sabe sempre bem ver, ainda que ao longe, o sítio onde se vai descansar, e nisso, o Alentejo, é aquela maravilha.

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E, claro, encontrarei sempre gente conhecida, vá eu onde for…

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Tento variar o máximo possível a minha alimentação, mas, regra geral, como leguminosas; feijão, grão, ervilhas, com tomate e umas rodelas de chouriço, ou massas com molho de tomate e queijo ralado. Bananas e laranjas complementam a coisa. O pequeno almoço é quase sempre café e pão com manteiga ou queijo de cabra. E mais fruta.

E agora, que já estou tratado, vou dormir que amanhã tenho mesmo de ir, não sei ainda é onde.

Abraços

 

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2 Responses to “Arriba-te e Faz-te à Pista…”

  1. orieuglas Says:

    Excelente leitura o fim de dia de trabalho(e imagens)!!! Por momentos, enquanto “devoro” as linhas e imagens que aqui colocas, parece que estou de férias! Nem me lembro que hoje foi o 3ºdia seguido na A.R., mas rapidamente dou comigo a imaginar o “galgar” estradas pela Europa fora!!! Muito bom, continua a novela. Um grande abraço e até à próxima tirada!

  2. Paulo Guerra Dos Santos Says:

    A primeira foto é algo de espectacular. Inveja !!!

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