Pit Stop com Migas e Tinto…

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A noite passada em Castro Verde foi tranquila, a chuva caiu com força, ao ponto de me acordar por segundos, e, quando me levantei estava tudo lavado, mas a planície alentejana permite ver ao longe o que aí vem e, as nuvens negras não deixaram margem para dúvidas, ia ser uma manhã daquelas.

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Entretanto descobri aqui uma loja da Bikezone e às 09:30 já lá estava plantado à porta para reparar a roda traseira que continuava com um raio a menos e da qual esperava a cada instante que se partisse outro, e assim sucessivamente até a roda ficar sem reparação possível. Pontualmente às 10:00 lá chegou um rapaz novo num jipe com o logótipo da loja que logo sorriu ao ver-me.

Conversa puxa conversa mas nem quinze minutos depois já a roda estava reparada e a bicicleta pronta a rodar. Excepto pelo tempo; chovia como se não houvesse amanhã.

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Continuei na loja à conversa com o Gonçalo, também um adepto de grandes pedaladas, e fiquei a saber que o Alentejo, ou pelo menos nesta zona, é rico em rapaziada que gosta de pedalar e, como se fosse de propósito, passava hoje em Castro Verde a volta ao Alentejo em bicicleta. Lá nos despedimos, pois ele queria ir ver os atletas passarem, não sem antes me avisar que se eu necessitasse de alguma coisa bastaria ligar-lhe que ele ir-me-ia desenrascar a qualquer sítio. A típica amizade alentejana adicionada à empatia que uma bicicleta carregada de alforges gera.

Recordo-me amiúde do livro Viagens Com Charlie, do grande John Steinbeck, onde ele descreve de modo delicioso a inveja saudável que a sua viagem, numa auto-caravana, gerava nas pessoas com quem falava, nomeadamente um rapazito que depois de mil rodeios se ofereceu para fazer todos os trabalhos desde que também pudesse ir. Este tipo de inveja nem sequer deveria ter este nome.

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Depois fui até um café ver a chuva cair, e ali estive. Passou a GNR, passou a volta, passou muita gente, só a chuva é que teimava em não passar e uma olhadela ao telefone, eram 12:00, e outra ao cartaz onde se enunciava a ementa fez com que optasse por almoçar umas migas com carne frita e um jarro de tinto… só porque tinha os pés frios.

Remédio santo, não só aqueci como assim que saí do restaurante a chuva foi-se embora. Eu é que já não estava em condições de ir fazer setenta e tal quilómetros e acabei por regressar ao parque de campismo para montar a tenda e dormir a sesta.

Em suma, um regalo.

E dei por mim a fazer uma espécie de balanço, prematuro, sobre o que têm sido estes dias.

Antes de mais, a minha experiência é limitada e a internet contém conselhos de pessoas cujas viagens de bicicleta pelo mundo as tornam verdadeiras especialistas e que vale a pena ler com atenção. Mas, é certo e sabido que duas cabeças pensam melhor que uma e acho que o mesmo se aplica às opiniões.

O material… não me parece que valha a pena gastar uma fortuna para estar a contar as gramas de carga que se vai levar, embora convenha não perder de vista que grama a grama se faz um quilo. O volume das coisas, saco-cama, colchão, tenda, roupa, etc., é também um factor a ter em conta, principalmente porque o aerodinamismo não é um mito; o facto de levar dois sacos demasiado grandes no porta-bagagens frontal já várias vezes me custou um esforço extra, principalmente quando o vento está contra.

Mais tarde voltarei a este tema, que é um bocado seca, por agora posso afirmar que a tenda, o colchão e o fogão, estão aprovados. O saco-cama, esse revelou-se demasiado volumoso. É um artigo militar já com mais de vinte anos e actualmente existem sacos com um quarto do peso deste, um terço do volume e o dobro da capacidade de aquecimento. O mesmo se pode dizer do blusão de penas. seja como for são duas peças indispensáveis para viajar nesta altura.

A bicicleta é a mesma que me tem servido há mais de seis anos, não sendo a mais apropriada nem uma topo de gama, tem-se portado lindamente. Excepção feita à roda traseira que não é a original. Os pneus, 700 x 28C, também não serão os mais indicados, talvez demasiado finos, 700 x 35 seriam melhores, mas até agora não houve nenhum furo.

E a atitude, que é o principal, seja na estrada, seja fora dela. Na estrada tenho adoptado o comportamento que tenho na cidade, ou seja, independentemente do que diz o código da estrada, comporto-me como alguém que tem o direito a circular nas estradas, excepção óbvia de IP e AE, e nunca me dei mal com isso. É claro que faço por incomodar o menos possível os automóveis, circulo pela berma ou, em caso desta não existir, o mais à direita possível sem comprometer a minha segurança. Quanto ao campismo, seja em paraísos como a Quinta de Odelouca ou colmeias como o Turiscampo, a politica é a que deve ser sempre; não deixar rasto.

Dentro em pouco vou dormir pois amanhã quero arrancar cedo para compensar este dia dedicado ao descanso… esta frase não saiu famosa, é que descanso tem sido tudo isto, um descanso muito saudável em todos os aspectos.

E ainda, de manhã tive uma notícia que me alegrou muito; a bicicleta do homem que veio da China até Portugal e que foi roubada em Sines apareceu atrás dum canavial com o material ainda todo e já foi despachada para esse admirável chinês. Não me parece difícil imaginar a razão pela qual o ladrão a abandonou… a ocasião faz o ladrão, mas não isenta ninguém de sentir vergonha de si mesmo.

Entretanto passei mais uma noite, bem chuvosa, em Castro Verde, e antes de adormecer decidi que, com chuva ou sol, far-me-ia ao caminho em direcção a Markádia, uma dica da Thea e Humberto.

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A manhã começou molhada, depois abriu, e lá fui eu…

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Até Aljustrel, depois Ferreira do Alentejo, Odivelas, mais uma dezena de quilómetros e cá estou eu dentro da tenda. A N2 é uma estrada muito boa para pedalar embora por vezes, como de Castro Verde até Aljustrel, ponha à prova a paciência duma pessoa, tal é a extensão das rectas. Daí para a frente torna-se mais sinuosa o que dá um certo sal à viagem. De amargar foi o vento, não só estava contra como estava, e está, furioso. Foi ele o único responsável por não ter desfrutado ainda mais do passeio, que, ainda assim, foi uma bênção para os olhos.

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E não só… gosto mesmo muito desta zona do país, desta largueza, e das pessoas que cá vivem também.

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Chegado às imediações de Aljustrel paro num tasco à beira da estrada para um café. Saio, enrolo um cigarro e fico ali deliciado. Nisto chega um jipe e sai um homem grande e forte, de barba, roupa de trabalho, parece bruto que nem uma casa mas o seu olhar desmente as aparências. Acompanham-no uma cadela pequena e o um dos maiores cães que já vi e dos mais gentis também.

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Cumprimenta-me com um bom dia quase inaudível e vai para a tasca. De seguida chega outro homem de bicicleta, uma pasteleira das antigas, olha para a minha e oferece-me um enorme sorriso onde três ou quatro dentes se mostram orgulhosos. Fico a dar festas no enorme cão e quando estou quase a acabar saem os dois homens da tasca e, pela conversa, percebo que o ciclista tem um problema com um animal e que o grandalhão, parece o Bud Spencer, é o veterinário. Faz umas perguntas acerca do estado do animal e receita-lhe um medicamento, o outro parece meio encabulado e o veterinário tem esta saída que me fez logo ser amigo dele: – Vai lá tratar do bicho, isso é que interessa. Caro? Aquilo é barato, precisas de dinheiro para aviar isso?

Há quem não se renda ao espírito dos tempos.

Sigo o meu caminho e às vezes pessoas que passam de carro apitam e acenam ou fazem o sinal de ok. É giro isso.

Subo até à aldeia de Odivelas, afinfo-lhe numa sanduíche e numa gasosa e fico a saber que ainda me faltam cerca de dez quilómetros. Toda a gente me diz que o meu destino, Markádia, vale a pena. Embora em Castro Verde, Ciryl, um amigo inglês me tenha dito que era um pouco caro. Este Ciryl tem oitenta e quatro anos que fariam inveja a muita gente, ri facilmente e conta-me que quando se reformou, vendeu a casa e agora vive na sua auto-caravana. Conhece Portugal desde 1954 quando foi a Peniche, contou-me que na altura foi comprar peixe e disse que os portugueses deviam ver-se livres do salazar. Diz que nunca mais se esqueceu da cara aflita das pessoas, a fazerem schhh para ele se calar e a olharem em volta.

Ele, como todos os estrangeiros com quem falo, têm a mesma opinião: What a beautiful country this is. You’re lucky but you should take better care of it. 

É verdade, não é? Devíamos não só cuidar melhor disto como aproveitar e rentabilizar, de uma forma sã, todo este potencial. Quanto ao lixo na berma das estradas (acreditem ou não, há “pessoas” que preferem urinar numa garrafa e deitá-la pela janela a saírem dos seus preciosos carros), mais os sacos e as garrafas e as mais variadas coisas. Fico imbuído dum espírito algo bárbaro e acabo a considerar que bem se podia cortar uma mão a quem demonstra tanto patriotismo.

Mas, apesar de eles, os estrangeiros não os bestas, terem razão, é mesmo uma terra muito bela e o sítio onde estou agora é bem prova disso. Embora não propicie a intimidade da Quinta de Odelouca, é um local maior e se alguém, pelo menos nesta altura do ano, quiser  uma tranquilidade quase irreal, este é um sítio para isso. Fica nas margens da barragem de Odivelas e vou passar aqui o dia de amanhã.

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Como brinde ainda pude comprar ovos caseiros. Amanhã de manhã, com salsichas alemãs e o pão que as senhoras me trarão da vila, vai ser um festival de recuperação. O vento, esse, continua como se todos lhe devessem e ninguém lhe pagasse.

Já lavei roupa (e o cheiro antigo do sabão azul branco?!) e agora vou tratar da janta que o dia foi puxado.

A todos, um grande abraço, cheio de perfumes, passarada e muita, muita largueza.

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One Response to “Pit Stop com Migas e Tinto…”

  1. Daniel Pires Says:

    És o maior!
    Só tenho isto para dizer…É o suficiente!
    Fortes Abraços

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