O Mundo Inaugurado

2013-03-26 08.31.57

Na Quinta de Odelouca encontrei, tal como já tinha escrito, um simpático  holandês chamado Ari, nome derivado de Adriano, como o imperador sobre quem Marguerite Yourcenar escreveu o excelente Memórias de Adriano.

O imperador Adriano, um dos cinco grandes Imperadores (segundo Gibbon, o período em que a humanidade melhor viveu). Para quem desconhece a história, era muito apaixonado por um rapaz chamado Antínoo, e ao longo do livro vai relatando as qualidades do seu amado. A que mais me chamou a atenção e que me tem vindo à memória várias vezes durante estas excelentes férias é a de ele dizer que, quando Antínoo estava na cidade, rodeado dos luxos que a sua relação com o imperador lhe permitia, não perdia nada da sua beleza ou sensualidade mas ficava indolente, relaxado, mas, e esta é a parte que me interessa, quando saiam para o campo (Adriano viajou pelo império todo), Antínoo recuperava, como que por milagre, toda a sua vivacidade e graça, como um belo animal que finalmente está no seu ambiente.

2013-03-26 08.17.13

Não tenho de memória a descrição exacta desta passagem do livro mas asseguro-vos que é algo que vale bem a pena ler.

E é isso que, não só sinto, como observo em mim próprio. Movo-me melhor, desde que saí de Lisboa nunca mais tive de tomar uma aspirina para as dores de cabeça (coisa que faço amiúde), assoo-me de manhã e não mais durante o dia, não me dói o pescoço, como bem e não tenho problemas de digestão, os intestinos funcionam como um relógio, nunca me doem as costas, durmo perfeitamente e, não obstante o esforço de alguns dias, nunca acordo cansado… enfim, no que fisicamente me diz respeito, há aqui algo a que devo prestar atenção.

Após este aparte… e a viagem? Dormi duas noites no parque de campismo Markádia, na barragem de Odivelas e, apesar do tempo não estar nada de feição, foram dois dias muito divertidos. Vizinhos humanos tinha um holandês enorme, sozinho numa tenda grande, cuja a única actividade era comer e sentar-se a olhar a barragem e a ler; um casal francês que me sorria quando nos cruzámos e que se entretinham a olhar os pássaros com binóculos, um casal de alemães na mesma actividade e um senhor inglês que encontrei duas vezes e que na sua bicicleta desdobrável me saudava com um sonoro “jolly good morning”, apesar do tempo teimar em desmenti-lo. E depois toda a restante vizinhança que me deliciava e me fazia estar que tempos a olhá-los e a tentar suborná-los com migalhas e pedaços de maçã; os coelhos, pequeninas bolas de pêlo nervosas e curiosas que pareciam estar sempre a debaterem-se entre o medo e a curiosidade. Por vezes, estava eu a fazer qualquer coisa e lá via um ou dois deles a olharem-me, sentados nos quartos traseiros com as enormes orelhas erectas, assim que me movia, regra geral para os tentar fotografar, já só via os pompons dos seus rabos numa corrida desenfreada. Havia também aves; os patos dentro de água que ao me verem mergulhavam e que à noite faziam um escarcéu dos diabos antes de irem dormir, as pegas-azuis, gulosas e descaradas como nunca tinha visto num pássaro, vi uma poupa, que tem tanto de bonita como de medrosa; os melros espertalhões que estão sempre a ver o que alguém está a fazer; as corujas, ou mochos, invisíveis e cujo grito gera o silêncio na mata; as cegonhas com o seu matraquear quando estão no ninho; os pardais, iguais aos que vivem comigo, alegres e brincalhões, um bando chilreante; as andorinhas sempre surpreendentes na sua velocidade vertiginosa. As árvores fazem igualmente parte de todo este deslumbre que pode parecer pueril, mas talvez seja mesmo esse o seu encanto . Lá diz o meu companheiro de viagem que quando uma criança explora um buraco, ou um recanto na natureza, inaugura o mundo.

2013-03-24 07.04.26

E, hoje de manhãzinha, quando me estava a vir embora, fui presenteado com uma perdiz e gosto de imaginar que tinha uma ninhada e que fizeram exactamente aquilo que o Thoreau disse que faziam; ficaram imóveis, confundindo-se com as folhas secas, e só a mãe moveu a cabeça ao ver-me passar. Foi o momento do dia.

2013-03-25 17.43.47 2013-03-25 17.44.09 2013-03-25 17.44.39

Para mim, que não passo dum saloio da cidade, estes dias foram um fartote.

2013-03-25 18.07.56

E lá vim eu, mais o vento que parecia que até hoje sempre tinha estado preso… e a chuva também. O caminho da barragem de Odivelas até Alcácer do Sal, onde vou pernoitar é digno de ser repetido em condições mais amenas.

2013-03-26 09.20.25 2013-03-26 09.20.53

A quem viaja de bicicleta é-lhe dado a ver até as mais pequenas coisas. Ao ir para Castro Verde eram centenas de pequenas lagartas escuras e peludas que atravessavam o alcatrão numa velocidade impressionante em tal animal. Hoje foi a vez de ver três salamandras, infelizmente estavam esmagadas na estrada… teria gostado mesmo muito de ver uma viva

2013-03-26 09.28.38

Passei no Torrão, terra muito simpática, e na praça em frente à junta de freguesia, uma vintena de velhotes conversavam. Enquanto eles me olhavam, sem dúvida interrogando-se sobre quem seria esta ave rara a pedais, veio logo o maluco da aldeia, jovem, ter comigo, a sorrir e a ordenar-me: dá-me um cigarro. Só de enrolar – respondo eu – tá bem, tu enrolas – responde ele, sem nunca deixar de sorrir. Sorri também e enrolei-lhe um cigarrinho perfeito, e lá foi ele todo contente mais o seu guarda-chuva cor de laranja.

2013-03-26 10.45.53

Perguntei aos antigos porque raio se chamava aquela rua assim… nenhum me soube responder, nem sequer um que vive nessa rua e que já em pequeno lá ia buscar água.

2013-03-26 11.28.36

E continuei em direcção a Alcácer, com a barragem do Vale Gaio a tentar-me a cada curva da estrada.

2013-03-26 10.05.29

Tive a sorte de reparar numa tabuleta meio escondida e aí fui eu pisar este caminho com cerca de dois mil anos. Os romanos sempre foram para mim motivo de admiração, por várias razões. Os melhores soldados, os melhores engenheiros, os mais sagazes políticos, os mais tolerantes em matéria de religião (até à chegada do idiota do Constantino) e, não obstante os sacrifícios de animais, sempre respeitadores e temerosos da Natureza.

2013-03-26 11.19.19

Do Torrão até Alcácer há rectas que parecem nunca mais acabar mas que estão longe de serem planas. Vão subindo quase sem se dar por isso, e de súbito é-se brindado com uma descida. E há também tentações imprevistas no meio do nada…

2013-03-26 10.08.20

Como uma sanduíche de presunto num lugar chamado Casa Branca e fico a conhecer, só de ouvir as conversas alheias na tasca, o “Cú de Ovelha”, que é um “pantomineiro dum cabrão”. Estou a acabar de fumar quando chega o Cú de Ovelha, e não é que o pobre do homem tem uma cara mesmo estranha a quem a falta de dentes não ajuda. Vou-me embora a rir-me, para dentro claro.

2013-03-26 11.12.02 2013-03-26 11.12.26

Passo numa terrinha que de alguma forma me impressiona, Barrosinha. Do lado esquerdo da estrada a Companhia Agricola da Barrosinha (ou algo assim), um edifício grande e imponente que faz pensar noutros tempos… e do lado direito, uma fileira de casas humildes, mesmo à beira do alcatrão, que suponho pertencessem aos empregados da companhia. O contraste entre a companhia e as choupanas é gritante, a primeira domina-as. E a seguir um estádio de futebol, completamente em ruínas, apenas os azulejos na frontaria ainda possuem na cor a vivacidade original, é, ou era, o Sporting Clube da Barrosinha. Soube o meu Amigo Luís Elias contar-me a história desta terra.

E acabo por entrar em Alcácer debaixo de chuva. Gosto tanto desta terra e está tão maltratada, muito longe do que eu idealizava. Para além da confusão arquitectónica estão a decorrer obras na marginal. Parece que houve uma guerra.

Acabo por escolher o parque municipal de Alcácer do Sal e subo a estrada pouco confiante na minha escolha. Afinal é um pequeno parque, muito bem cuidado e que me cativa logo pela recepção que, no meu imaginário, se assemelha a um posto fronteiriço num campo isolado.

2013-03-26 21.18.13


É aqui que vou dormir (o terreno onde armei a tenda é excelente), chove a sério e após ter jantado muito bem e ter rematado com um café e um medronho estou em grande. Juntando a isto, todas as demonstrações de Amizade que tenho recebido, é difícil não me sentir com cinco metros de altura e ir dormir como um bebé.

A todos, um grande abraço.

Advertisements

2 Responses to “O Mundo Inaugurado”

  1. orieuglas Says:

    Excelente!!! Mais uma descrição, extraordinária, de outra etapa das tuas férias! Dou comigo a ler e parece que estou lá, só falta mesmo os sentir cheiros, porque a chuva e o vento, batem na janela, mesmo ao meu lado, o que ajuda na ” visualização” do teu passeio! Obrigado

    Um grande abraço e boa noite

  2. Joana Cortes Says:

    Boa noite! Estou a gostar tanto do relato da sua viagem, que já me estou a preparar para tentar algo parecido ainda este ano.(Um percurso mais pequeno para me iniciar). Muito obrigado pela partilha, e espero que tenha muitas mais férias assim 🙂 Joana

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s


%d bloggers like this: