De volta. “Por Ahora”…

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É comum dizer-se, acho eu que mais por conveniência do que por respeito, que gostos não se discutem. Nietzsche, por seu lado, achava que a vida não passava duma discussão de gostos. Ocorre-me isto enquanto José Sócrates fala na rtp1 e eu estou no jardim.

O dia, parafraseando o meu Mano, “não esteve bom nem mau, esteve uma grande merda”, e foi mesmo isso, só depois de cair a noite é que parou a chuva e o vento, resultado: foi um dia dedicado à contemplação (eufemismo para ronha) e com um intervalo de vinte minutos para arejar os trapos

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mas a noite acabou por compensar bem o dia como a foto inicial testemunha. Já para não falar do jantar, no qual me esmerei e que rematei com um bom medronho.

Enquanto os feijões apuravam, um alemão idoso surgiu a passear um gato preto pela trela (que foi o que motivou o meu post no facebook acerca do Migo), falámos do tempo e de parques de campismo. Tinha estado uns dias na barragem do Pego do Altar e tinha adorado (suponho que o gato também). Por vontade dele raramente deixaria o campo para vir para a cidade, mas, por entre sonoras gargalhadas (que me espantaram em pessoas regra geral tão sossegadas), confidenciou-me que tinha sido a mulher dele a insistir por causa do cabeleireiro. Quando se apercebeu que o meu jantar já devia estar pronto e que eu estava a adiar a refeição para estar na conversa, despediu-se rapidamente desejando-me boa viagem e dizendo-me que eu devia ser muito forte. Disse-lhe que nem por isso, estou é habituado a andar de bicicleta todos os dias… no, no, not the legs, the head. Touring alone isn’t easy. Fiquei surpreendido, para mim é exactamente o contrário. Seja como for, se há coisa que nunca estive nestas férias foi sozinho. Para além de novos amigos, a quantidade de amigos que demonstraram, não apenas interesse  como também preocupação, fizeram destas férias, juntamente com tudo o resto, algo inesquecível.

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E foram Amigos que vieram de Lisboa até Alcácer do Sal para um almoço como há muito não tinha. Uma risota, e vinho e uma sopa de cação deliciosa no Estrela do Sado, fizeram deste um dia diferente embora tenha comprometido qualquer ideia de pedalar, excepto até ao parque de campismo onde já tinha pernoitado.

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(confesso que houve habilidades rodoviárias pelo caminho)

 

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Dizer que valeu bem a pena é dizer quase nada… almoçar com os Amigos é sempre bom, mas fazê-lo fora da realidade habitual, quando já não os vemos há uns tempos e, para mais, tendo eles vindo de relativamente longe expressamente para isso é…

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Do dia seguinte a essa libação a Filotes não há muito a dizer, e o que há é, na sua maioria aborrecido. Chuva e vento com fartura fizeram com que quase não saísse da tenda. Viajar à chuva de bicicleta, aqui ou na rotina da cidade, costuma impressionar muito as pessoas, por mais que eu lhes assegure que não gosto de andar encharcado e que, sob as protecções impermeáveis, pode vir a chuva que vier que me manterei seco e divertido. O pior da chuva reside nos outros utilizadores da estrada e se for possível reduzir as hipóteses de haver chatices, melhor. Assim passei o dia de sexta-feira a ler e a dormitar.

E uma nota para o comportamento de alguns portugueses nos parques de campismo… quando Shakespeare afirmou que a vida é um palco, não estava obrigatoriamente a dizer que temos de actuar o mais ruidosamente possível. É a malta dos jipes que chega e que, para montar duas tendas demora uma hora, com os carros ligados e gritos entre eles. São os caravanistas que às 22:30 telefonam aos amigos a dizer: – isto é muita fixe, muita sossegado. Apareçam que há quatro grelhadores (e o resto do parque fica a saber isso poupando assim eventuais chamadas ou sms), ou o casal de motards conversador matinal para quem beatas e papéis são a decoração ideal.

Ter-me esquecido do fim de semana de páscoa foi talvez o pior descuido desta viagem.

Ontem o Sol ainda ia baixo e eu já estava na recepção a fumar uma cigarrada, com a bicicleta pronta para me fazer à estrada. Tinha despertado cedo e aproveitei a madrugada para estar a fazer o pequeno almoço e a arrumar as coisas com a calma necessária. Destino: Tróia e daí, o comboio até Campolide para a última etapa até casa. A previsão meteorológica não é famosa e não vale a pena estar a forçar a nota. Mas dizer ontem que hoje o tempo ia estar como está era uma heresia

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Foi um óptimo percurso, de Alcácer até Tróia. O céu limpo, a estrada boa, e, largueza… Uma coisa muito desagradável é a quantidade de animais mortos na estrada. Em qual estrada. Até uma ovelha meia descarnada encontrei numa berma. Ontem, apesar dos muitos ouriços cacheiros  esmagados na estrada, e na berma, tive a surpresa do dia e que talvez tenha salvo do mesmo destino.

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Quando era miúdo tive um bicho destes, mas maior, apanhado numas cheias. Gosto de bichos, destes particularmente, têm um olhar que parece censurar-nos, como se a sua longevidade como espécie fosse testemunhando todas as parvoíces humanas e não as esquecesse. Acho que este não há-de ter muitas razões de queixa, excepto pela sessão fotográfica. Soubesse ele que esteve quase a entrar para o saco para satisfazer o meu egoísmo… mas lá consegui ser acertado, depositei-o numas ervas junto à água e raspei-me rapidamente.

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Talvez volte para a estrada e um dos bétinhos que por ali aceleram o atropele, ou talvez viva mais uma centena ou duas de anos, placidamente.

Enquanto pedalava, pensava em quão bem correu este ensaio de viagem…

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As minhas principais preocupações não se realizaram. Tinha receio de que a minha bicicleta não resistisse e acabou por revelar-se aquilo que sempre foi; excelente. A tenda, não obstante ter sido barata, enfrentou vento forte e chuva abundante sem nunca ter deixado de me proteger como deve ser (apesar de ser vendida como para duas pessoas, não o é). As minhas pernas também não me deixaram ficar mal e fiquei ciente dos meus limites, entre sessenta a cem quilómetros por etapa. Foi bom perceber que não tinha levado muito material a mais e fiquei com uma noção mais precisa daquilo que necessito para futuras incursões no verde. Também foi recompensador constatar como adoptei uma série de rotinas que algumas vezes implicam disciplina, principalmente após uma etapa que foi desgastante, mas que se revelaram muito ajuizadas; como nunca negligenciar a alimentação, por mais convidativo que seja ir dormir, ou nunca deixar de tomar um banho antes de ir para o saco-cama; não descurar a arrumação do material, achar sempre que vai chover…

Como diz o meu amigo Bernard: Concentrazione, concentrazione. Não se trata de andar sempre em stress, mas sim de prestar atenção a tudo, de fazer as coisas com atenção ao que se está a fazer. Vindo de alguém que viaja há tantos anos quanto ele, mantendo-se saudável de corpo e mente, parece-me um conselho muito valioso.

Isto é só uma pequena parte daquelas que foram as minhas melhores férias de sempre e que, assim que tenha hipótese, estou decidido a repetir. O que aqui descrevo são os aspectos relevantes e que julgo ter em comum com qualquer pessoa, mas há aqueles que são particulares, todos nós temos as nossas peculiaridades, a nossa solidão interior, e isso dá-nos momentos que só para nós próprios fazem sentido. Que vos diriam os meus gritos a descer a serra? Os as minhas impressões ao estar deitado no meio do nada sem outra luz que não as estrelas? Ou os cheiros que subitamente me assaltaram e que só o saberei interpretar quando os voltar a saborear? Ou a que sabe estar numa estrada que não se conhece e que, às duas por três, já nem interessa onde vai dar?

Este tipo de coisas, lamento, mas terão de ir vós à procura delas. O que vos garanto é que ir de bicicleta é uma forma muito boa de o fazer. É silenciosa ao ponto de surpreender pessoas e bichos, é rápida sem que a velocidade nos aliene do ambiente em redor, e as coisas que se dizem acerca das reacções que a bicicleta gera, são verdade.

E de Campolide até Pedrouços? Nunca se disseram tantos palavrões juntos. Ó António Costa, as nossas estradas e ruas são uma desgraça e um perigo. Olha, deixa lá as ciclovias para depois, trata, ou manda tratar, primeiro desta miséria. E, à senhora que conduzia um Citroen e que me apitou furiosamente junto à antiga FIL, tenho o prazer de a informar que faz parte do grupo restrito de pessoas que ofendi durante a minha viagem. O primeiro é o condutor dum camião que no Brejão decidiu vir aos esses na estrada a ver se me assustava e a quem chamei tudo o que me ocorreu (fizeste bem em não parar) e a soldado da GNR que ultrapassou outro carro, ignorando o traço contínuo e o ciclista que seguia na faixa oposta e que a informou, num berro, da profissão da mãezinha dela.

Agora estou no meu covil, o tempo lá fora mostra-me que tomei a decisão correcta e, como alguém disse no facebook, vim realmente mais rico. A propósito, acho que três semanas custaram-me cerca de trezentos euros, menos talvez. Parece-me razoável, não venha algum idiota dizer que vivo acima das minhas possibilidades. Eu vivo é muito acima das possibilidades deles imaginarem o que é viver.

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A todos os que me ajudaram, a todos os que encontraram aqui coisas que lhes agradaram ou lhes sejam úteis, a todos  cujas demonstrações de amizade me foram tão agradáveis de receber, e foram tantos,

UM GRANDE ABRAÇO

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PS – Até já…

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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One Response to “De volta. “Por Ahora”…”

  1. nunotakk Says:

    Obrigado por nos deixares ir contigo na tua viagem pelo mundo. Desta vez português, um outra vez até ao Cabo Norte. :o)
    Abraøo.

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