“Fala-me, Musa, do homem astuto que tanto vagueou”

Enfim, astuto o suficiente para ter descoberto este tipo de férias.

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Há um ano andava em viagem pelo sul do país, de bicicleta e com material que me tornásse auto-suficiente.
Foram as melhores férias de sempre.
Há dois dias julgava que não tornaria a experimentar o gosto duma viagem como aquela. Por ser a minha primeira, pela invernia que se fez sentir durante metade do tempo, pelas limitações impostas por material algo desadequado, demasiado grande e pesado, e, principalmente, por terem sido as melhores férias de sempre.
Quando regressei já vinha a pensar sobre que viagem faria a seguir e que coisas gostaria de substituir.
Na minha fiel bicicleta, pensei em trocar de rodas, de pedaleira e pouco mais. Quanto ao restante; blusão de penas, impermeável, luvas, botas, alforges, colchão, saco-cama, eram coisas que já possuia e que nunca me tinham deixado ficar mal mas que, apesar do afecto Thoreano que os objectos velhos mas fiáveis suscitam, pesavam bastante e eram volumosos. Mais pesado e volumoso era o orçamento para tudo isto, só poupanças rigorosas demais para o meu carácter o permitiriam. Ainda assim, fui pesquisando, lendo criticas e experiências de outros viajantes.
Umas semanas mais tarde, no início do Verão de 2013, para minha surpresa, ligam-me da UAL para me informarem que tinham um cheque para mim em virtude de ter sido bom aluno no ano lectivo anterior.
Fartei-me de rir e confirmei, mais uma vez, que tenho mais sorte que juízo. Há tanta ironia nisto que nem vale a pena começar a falar.
Fiz novas pesquisas e actualmente não troco o meu material por nenhum outro.
Só as rodas é que ficaram para o fim, e graças a elas, acabei por sair com treze dias de atraso. Quase que me esqueço de treze dias de mau génio e acho que valeu a pena a espera…
Parti, finalmente, do Estoril, às 07:00 do dia treze. Um nascer do dia limpo e fresco, um despertar incessante na minha cara e nas minhas mãos enquanto deslizava pelo paredão em direcção a Cascais. Um cigarro e uma fotografia
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Com tudo a correr bem, passei sem parar em direcção ao Guincho.
Que coisa tão boa a ciclovia de Cascais até ao Guincho, uma coisa tão simples e que permite uma viagem muito mais descontraída. Ouvir um carro que se aproxima por detrás e não o considerar uma potencial ameaça torna tudo ainda mais leve. E então não ouvir nenhum…
O sol aqueceu-me as costas e a brisa fria não me deixou suar.
Parei na Malveira da Serra só porque me lembrei que fumo.
E segui a bom ritmo em direcção a Colares, a bicicleta respondia bem e o corpo também. Cheirava bem, cheira sempre bem nestas alturas e, quanto mais longe se está e mais desconhecido é o caminho, melhor cheira.

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Bebi uma bica em Colares e aí fui eu, bem contente, por este ano ser tudo mais fácil. O primeiro dia do ano passado tinha sido um deslumbre com direito a uma avaria no manípulo das mudanças dianteiras, vento forte pela proa e uma chegada, já de noite, ao parque de campismo da Praia da Galé sem conseguir com uma gata pelo rabo.
Este estava a ser um dia inicial muito mais fácil.
Segui para a Praia das Maçãs e depois para as Azenhas do Mar. A maresia a tentar ser nevoeiro e eu deliciado com este dia tão ansiado.
Desde H.P. Lovecraft a David Byrne, são vários os que associo às bicicletas, ao prazer que permite aos pensamentos divagarem com a ligeireza do par de rodas.
Eis algo a ser antes de ser artista…

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A seguir a Fontanelas começa aquilo que já uma vez, com menos de metade da carga, tinha experimentado. Subidas que tornam impossível que este percurso alguma vez seja uma ciclovia na verdadeira acepção da palavra (<10% de inclinação).
E mais uma, e outra, e outra…
Cheguei à Ericeira já com o rabo algo dorido (o grande erro de ajustar o selim dias antes de partir) e as pernas um pouco cansadas. É como diz o João Lúcio que se cruzou comigo em Odrinhas… https://www.facebook.com/photo.php?fbid=10152263010232287&set=a.10151278754977287.488027.774572286&type=1&theater&notif_t=like_tagged
Pensei em ficar no parque de campismo da Ericeira mas ainda era cedo e achei que mais vinte e tal quilómetros até Santa Cruz não seria exagerar e permitir-me-iam preguiçar no dia seguinte. Comi qualquer coisa, descansei um bocado e aí fui eu.
Mais umas subidas valentes, e toma, e toma e lá acabei por chegar ao Parque de Campismo de Santa Cruz. E estava mesmo cansado e dorido, exactamente como no primeiro dia da viagem do ano passado. Acabei por me rir da minha parvoíce… se o material se porta bem e o tempo ajuda, então tem de ser elemento homem a complicar o que é simples.
Montei a tenda, tomei banho, fiz um jantar reforçado; uma lata de petit salé aux lentilles, com esparguete a acompanhar, pão, queijo e fruta. E adeusinho até amanhã… acho que ainda não eram oito da noite quando me fui esticar.
Foi uma noite regalada e acordei antes do sol. Um blusão quente e uma caneca de café preto e quente… estou em grande.
Este parque de campismo é uma espécie de campo de refugiados, com roloutes e avançados e toldos verdes a perder de vista. A visão de um dálmata de louça, guardando inabalável os domínios do seu senhor é o símbolo inegável que este não é o meu tipo de campismo. As condições e o preço são aceitáveis.
É uma coisa tão estranha não haver um ponto de reciclagem num parque de campismo.
Daí em diante foi o costume, arejar, limpar, arrumar, mas devagar, porque hoje só tinha de fazer vinte e poucos quilómetros.
Começou de forma perfeita

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Da última vez que aqui tenha passado a subida do Vimeiro teve de ser feita com a bicicleta a ter de ser levada à mão, e eu, vá-se lá saber porquê, achei que desta feita lhe iria dar a volta. Qual quê, mais uma vez tive de desmontar e levá-la ao meu lado. Não se pode vencer todas.
Mas o passeio vale bem a pena

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Mas tive a minha vingança com a subida de Ribamar para a Lourinhã, desta vez fi-la sem nunca ter de desmontar.
Mas depois, da Lourinhã até Geraldes, foi sempre em passeio, apesar de ser sempre a subir são inclinações pouco pronunciadas que se fazem sem grande esforço, a paisagem é ampla e a estrada é boa e no Alto Veríssimo, acaba-se, finalmente, a subida e, eis Peniche e as Berlengas ao fundo de uma descida

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Guardo-os para domingo, porque amanhã o Xavier faz anos e o Jorge vai acender o forno.
Este foi um excelente ensaio.

Fico na Terra da Ciência.

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Depois será para Norte.

Abraços,

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One Response to ““Fala-me, Musa, do homem astuto que tanto vagueou””

  1. orieuglas Says:

    Boas, estava a ver que este ano não tinha leitura!!! Folgo em saber que está tudo bem , e ,quanto ai que li nesta descrição só tenho pena que te tenhas lembrado que fumas!!!! Continuação de boas férias e insisto no meu conselho…bebe muita água! Um abraço

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