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“Fala-me, Musa, do homem astuto que tanto vagueou”

March 17, 2014

Enfim, astuto o suficiente para ter descoberto este tipo de férias.

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Há um ano andava em viagem pelo sul do país, de bicicleta e com material que me tornásse auto-suficiente.
Foram as melhores férias de sempre.
Há dois dias julgava que não tornaria a experimentar o gosto duma viagem como aquela. Por ser a minha primeira, pela invernia que se fez sentir durante metade do tempo, pelas limitações impostas por material algo desadequado, demasiado grande e pesado, e, principalmente, por terem sido as melhores férias de sempre.
Quando regressei já vinha a pensar sobre que viagem faria a seguir e que coisas gostaria de substituir.
Na minha fiel bicicleta, pensei em trocar de rodas, de pedaleira e pouco mais. Quanto ao restante; blusão de penas, impermeável, luvas, botas, alforges, colchão, saco-cama, eram coisas que já possuia e que nunca me tinham deixado ficar mal mas que, apesar do afecto Thoreano que os objectos velhos mas fiáveis suscitam, pesavam bastante e eram volumosos. Mais pesado e volumoso era o orçamento para tudo isto, só poupanças rigorosas demais para o meu carácter o permitiriam. Ainda assim, fui pesquisando, lendo criticas e experiências de outros viajantes.
Umas semanas mais tarde, no início do Verão de 2013, para minha surpresa, ligam-me da UAL para me informarem que tinham um cheque para mim em virtude de ter sido bom aluno no ano lectivo anterior.
Fartei-me de rir e confirmei, mais uma vez, que tenho mais sorte que juízo. Há tanta ironia nisto que nem vale a pena começar a falar.
Fiz novas pesquisas e actualmente não troco o meu material por nenhum outro.
Só as rodas é que ficaram para o fim, e graças a elas, acabei por sair com treze dias de atraso. Quase que me esqueço de treze dias de mau génio e acho que valeu a pena a espera…
Parti, finalmente, do Estoril, às 07:00 do dia treze. Um nascer do dia limpo e fresco, um despertar incessante na minha cara e nas minhas mãos enquanto deslizava pelo paredão em direcção a Cascais. Um cigarro e uma fotografia
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Com tudo a correr bem, passei sem parar em direcção ao Guincho.
Que coisa tão boa a ciclovia de Cascais até ao Guincho, uma coisa tão simples e que permite uma viagem muito mais descontraída. Ouvir um carro que se aproxima por detrás e não o considerar uma potencial ameaça torna tudo ainda mais leve. E então não ouvir nenhum…
O sol aqueceu-me as costas e a brisa fria não me deixou suar.
Parei na Malveira da Serra só porque me lembrei que fumo.
E segui a bom ritmo em direcção a Colares, a bicicleta respondia bem e o corpo também. Cheirava bem, cheira sempre bem nestas alturas e, quanto mais longe se está e mais desconhecido é o caminho, melhor cheira.

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Bebi uma bica em Colares e aí fui eu, bem contente, por este ano ser tudo mais fácil. O primeiro dia do ano passado tinha sido um deslumbre com direito a uma avaria no manípulo das mudanças dianteiras, vento forte pela proa e uma chegada, já de noite, ao parque de campismo da Praia da Galé sem conseguir com uma gata pelo rabo.
Este estava a ser um dia inicial muito mais fácil.
Segui para a Praia das Maçãs e depois para as Azenhas do Mar. A maresia a tentar ser nevoeiro e eu deliciado com este dia tão ansiado.
Desde H.P. Lovecraft a David Byrne, são vários os que associo às bicicletas, ao prazer que permite aos pensamentos divagarem com a ligeireza do par de rodas.
Eis algo a ser antes de ser artista…

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A seguir a Fontanelas começa aquilo que já uma vez, com menos de metade da carga, tinha experimentado. Subidas que tornam impossível que este percurso alguma vez seja uma ciclovia na verdadeira acepção da palavra (<10% de inclinação).
E mais uma, e outra, e outra…
Cheguei à Ericeira já com o rabo algo dorido (o grande erro de ajustar o selim dias antes de partir) e as pernas um pouco cansadas. É como diz o João Lúcio que se cruzou comigo em Odrinhas… https://www.facebook.com/photo.php?fbid=10152263010232287&set=a.10151278754977287.488027.774572286&type=1&theater&notif_t=like_tagged
Pensei em ficar no parque de campismo da Ericeira mas ainda era cedo e achei que mais vinte e tal quilómetros até Santa Cruz não seria exagerar e permitir-me-iam preguiçar no dia seguinte. Comi qualquer coisa, descansei um bocado e aí fui eu.
Mais umas subidas valentes, e toma, e toma e lá acabei por chegar ao Parque de Campismo de Santa Cruz. E estava mesmo cansado e dorido, exactamente como no primeiro dia da viagem do ano passado. Acabei por me rir da minha parvoíce… se o material se porta bem e o tempo ajuda, então tem de ser elemento homem a complicar o que é simples.
Montei a tenda, tomei banho, fiz um jantar reforçado; uma lata de petit salé aux lentilles, com esparguete a acompanhar, pão, queijo e fruta. E adeusinho até amanhã… acho que ainda não eram oito da noite quando me fui esticar.
Foi uma noite regalada e acordei antes do sol. Um blusão quente e uma caneca de café preto e quente… estou em grande.
Este parque de campismo é uma espécie de campo de refugiados, com roloutes e avançados e toldos verdes a perder de vista. A visão de um dálmata de louça, guardando inabalável os domínios do seu senhor é o símbolo inegável que este não é o meu tipo de campismo. As condições e o preço são aceitáveis.
É uma coisa tão estranha não haver um ponto de reciclagem num parque de campismo.
Daí em diante foi o costume, arejar, limpar, arrumar, mas devagar, porque hoje só tinha de fazer vinte e poucos quilómetros.
Começou de forma perfeita

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Da última vez que aqui tenha passado a subida do Vimeiro teve de ser feita com a bicicleta a ter de ser levada à mão, e eu, vá-se lá saber porquê, achei que desta feita lhe iria dar a volta. Qual quê, mais uma vez tive de desmontar e levá-la ao meu lado. Não se pode vencer todas.
Mas o passeio vale bem a pena

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Mas tive a minha vingança com a subida de Ribamar para a Lourinhã, desta vez fi-la sem nunca ter de desmontar.
Mas depois, da Lourinhã até Geraldes, foi sempre em passeio, apesar de ser sempre a subir são inclinações pouco pronunciadas que se fazem sem grande esforço, a paisagem é ampla e a estrada é boa e no Alto Veríssimo, acaba-se, finalmente, a subida e, eis Peniche e as Berlengas ao fundo de uma descida

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Guardo-os para domingo, porque amanhã o Xavier faz anos e o Jorge vai acender o forno.
Este foi um excelente ensaio.

Fico na Terra da Ciência.

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Depois será para Norte.

Abraços,

De volta. “Por Ahora”…

March 31, 2013

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É comum dizer-se, acho eu que mais por conveniência do que por respeito, que gostos não se discutem. Nietzsche, por seu lado, achava que a vida não passava duma discussão de gostos. Ocorre-me isto enquanto José Sócrates fala na rtp1 e eu estou no jardim.

O dia, parafraseando o meu Mano, “não esteve bom nem mau, esteve uma grande merda”, e foi mesmo isso, só depois de cair a noite é que parou a chuva e o vento, resultado: foi um dia dedicado à contemplação (eufemismo para ronha) e com um intervalo de vinte minutos para arejar os trapos

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mas a noite acabou por compensar bem o dia como a foto inicial testemunha. Já para não falar do jantar, no qual me esmerei e que rematei com um bom medronho.

Enquanto os feijões apuravam, um alemão idoso surgiu a passear um gato preto pela trela (que foi o que motivou o meu post no facebook acerca do Migo), falámos do tempo e de parques de campismo. Tinha estado uns dias na barragem do Pego do Altar e tinha adorado (suponho que o gato também). Por vontade dele raramente deixaria o campo para vir para a cidade, mas, por entre sonoras gargalhadas (que me espantaram em pessoas regra geral tão sossegadas), confidenciou-me que tinha sido a mulher dele a insistir por causa do cabeleireiro. Quando se apercebeu que o meu jantar já devia estar pronto e que eu estava a adiar a refeição para estar na conversa, despediu-se rapidamente desejando-me boa viagem e dizendo-me que eu devia ser muito forte. Disse-lhe que nem por isso, estou é habituado a andar de bicicleta todos os dias… no, no, not the legs, the head. Touring alone isn’t easy. Fiquei surpreendido, para mim é exactamente o contrário. Seja como for, se há coisa que nunca estive nestas férias foi sozinho. Para além de novos amigos, a quantidade de amigos que demonstraram, não apenas interesse  como também preocupação, fizeram destas férias, juntamente com tudo o resto, algo inesquecível.

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E foram Amigos que vieram de Lisboa até Alcácer do Sal para um almoço como há muito não tinha. Uma risota, e vinho e uma sopa de cação deliciosa no Estrela do Sado, fizeram deste um dia diferente embora tenha comprometido qualquer ideia de pedalar, excepto até ao parque de campismo onde já tinha pernoitado.

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(confesso que houve habilidades rodoviárias pelo caminho)

 

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Dizer que valeu bem a pena é dizer quase nada… almoçar com os Amigos é sempre bom, mas fazê-lo fora da realidade habitual, quando já não os vemos há uns tempos e, para mais, tendo eles vindo de relativamente longe expressamente para isso é…

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Do dia seguinte a essa libação a Filotes não há muito a dizer, e o que há é, na sua maioria aborrecido. Chuva e vento com fartura fizeram com que quase não saísse da tenda. Viajar à chuva de bicicleta, aqui ou na rotina da cidade, costuma impressionar muito as pessoas, por mais que eu lhes assegure que não gosto de andar encharcado e que, sob as protecções impermeáveis, pode vir a chuva que vier que me manterei seco e divertido. O pior da chuva reside nos outros utilizadores da estrada e se for possível reduzir as hipóteses de haver chatices, melhor. Assim passei o dia de sexta-feira a ler e a dormitar.

E uma nota para o comportamento de alguns portugueses nos parques de campismo… quando Shakespeare afirmou que a vida é um palco, não estava obrigatoriamente a dizer que temos de actuar o mais ruidosamente possível. É a malta dos jipes que chega e que, para montar duas tendas demora uma hora, com os carros ligados e gritos entre eles. São os caravanistas que às 22:30 telefonam aos amigos a dizer: – isto é muita fixe, muita sossegado. Apareçam que há quatro grelhadores (e o resto do parque fica a saber isso poupando assim eventuais chamadas ou sms), ou o casal de motards conversador matinal para quem beatas e papéis são a decoração ideal.

Ter-me esquecido do fim de semana de páscoa foi talvez o pior descuido desta viagem.

Ontem o Sol ainda ia baixo e eu já estava na recepção a fumar uma cigarrada, com a bicicleta pronta para me fazer à estrada. Tinha despertado cedo e aproveitei a madrugada para estar a fazer o pequeno almoço e a arrumar as coisas com a calma necessária. Destino: Tróia e daí, o comboio até Campolide para a última etapa até casa. A previsão meteorológica não é famosa e não vale a pena estar a forçar a nota. Mas dizer ontem que hoje o tempo ia estar como está era uma heresia

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Foi um óptimo percurso, de Alcácer até Tróia. O céu limpo, a estrada boa, e, largueza… Uma coisa muito desagradável é a quantidade de animais mortos na estrada. Em qual estrada. Até uma ovelha meia descarnada encontrei numa berma. Ontem, apesar dos muitos ouriços cacheiros  esmagados na estrada, e na berma, tive a surpresa do dia e que talvez tenha salvo do mesmo destino.

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Quando era miúdo tive um bicho destes, mas maior, apanhado numas cheias. Gosto de bichos, destes particularmente, têm um olhar que parece censurar-nos, como se a sua longevidade como espécie fosse testemunhando todas as parvoíces humanas e não as esquecesse. Acho que este não há-de ter muitas razões de queixa, excepto pela sessão fotográfica. Soubesse ele que esteve quase a entrar para o saco para satisfazer o meu egoísmo… mas lá consegui ser acertado, depositei-o numas ervas junto à água e raspei-me rapidamente.

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Talvez volte para a estrada e um dos bétinhos que por ali aceleram o atropele, ou talvez viva mais uma centena ou duas de anos, placidamente.

Enquanto pedalava, pensava em quão bem correu este ensaio de viagem…

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As minhas principais preocupações não se realizaram. Tinha receio de que a minha bicicleta não resistisse e acabou por revelar-se aquilo que sempre foi; excelente. A tenda, não obstante ter sido barata, enfrentou vento forte e chuva abundante sem nunca ter deixado de me proteger como deve ser (apesar de ser vendida como para duas pessoas, não o é). As minhas pernas também não me deixaram ficar mal e fiquei ciente dos meus limites, entre sessenta a cem quilómetros por etapa. Foi bom perceber que não tinha levado muito material a mais e fiquei com uma noção mais precisa daquilo que necessito para futuras incursões no verde. Também foi recompensador constatar como adoptei uma série de rotinas que algumas vezes implicam disciplina, principalmente após uma etapa que foi desgastante, mas que se revelaram muito ajuizadas; como nunca negligenciar a alimentação, por mais convidativo que seja ir dormir, ou nunca deixar de tomar um banho antes de ir para o saco-cama; não descurar a arrumação do material, achar sempre que vai chover…

Como diz o meu amigo Bernard: Concentrazione, concentrazione. Não se trata de andar sempre em stress, mas sim de prestar atenção a tudo, de fazer as coisas com atenção ao que se está a fazer. Vindo de alguém que viaja há tantos anos quanto ele, mantendo-se saudável de corpo e mente, parece-me um conselho muito valioso.

Isto é só uma pequena parte daquelas que foram as minhas melhores férias de sempre e que, assim que tenha hipótese, estou decidido a repetir. O que aqui descrevo são os aspectos relevantes e que julgo ter em comum com qualquer pessoa, mas há aqueles que são particulares, todos nós temos as nossas peculiaridades, a nossa solidão interior, e isso dá-nos momentos que só para nós próprios fazem sentido. Que vos diriam os meus gritos a descer a serra? Os as minhas impressões ao estar deitado no meio do nada sem outra luz que não as estrelas? Ou os cheiros que subitamente me assaltaram e que só o saberei interpretar quando os voltar a saborear? Ou a que sabe estar numa estrada que não se conhece e que, às duas por três, já nem interessa onde vai dar?

Este tipo de coisas, lamento, mas terão de ir vós à procura delas. O que vos garanto é que ir de bicicleta é uma forma muito boa de o fazer. É silenciosa ao ponto de surpreender pessoas e bichos, é rápida sem que a velocidade nos aliene do ambiente em redor, e as coisas que se dizem acerca das reacções que a bicicleta gera, são verdade.

E de Campolide até Pedrouços? Nunca se disseram tantos palavrões juntos. Ó António Costa, as nossas estradas e ruas são uma desgraça e um perigo. Olha, deixa lá as ciclovias para depois, trata, ou manda tratar, primeiro desta miséria. E, à senhora que conduzia um Citroen e que me apitou furiosamente junto à antiga FIL, tenho o prazer de a informar que faz parte do grupo restrito de pessoas que ofendi durante a minha viagem. O primeiro é o condutor dum camião que no Brejão decidiu vir aos esses na estrada a ver se me assustava e a quem chamei tudo o que me ocorreu (fizeste bem em não parar) e a soldado da GNR que ultrapassou outro carro, ignorando o traço contínuo e o ciclista que seguia na faixa oposta e que a informou, num berro, da profissão da mãezinha dela.

Agora estou no meu covil, o tempo lá fora mostra-me que tomei a decisão correcta e, como alguém disse no facebook, vim realmente mais rico. A propósito, acho que três semanas custaram-me cerca de trezentos euros, menos talvez. Parece-me razoável, não venha algum idiota dizer que vivo acima das minhas possibilidades. Eu vivo é muito acima das possibilidades deles imaginarem o que é viver.

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A todos os que me ajudaram, a todos os que encontraram aqui coisas que lhes agradaram ou lhes sejam úteis, a todos  cujas demonstrações de amizade me foram tão agradáveis de receber, e foram tantos,

UM GRANDE ABRAÇO

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PS – Até já…

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O Mundo Inaugurado

March 26, 2013

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Na Quinta de Odelouca encontrei, tal como já tinha escrito, um simpático  holandês chamado Ari, nome derivado de Adriano, como o imperador sobre quem Marguerite Yourcenar escreveu o excelente Memórias de Adriano.

O imperador Adriano, um dos cinco grandes Imperadores (segundo Gibbon, o período em que a humanidade melhor viveu). Para quem desconhece a história, era muito apaixonado por um rapaz chamado Antínoo, e ao longo do livro vai relatando as qualidades do seu amado. A que mais me chamou a atenção e que me tem vindo à memória várias vezes durante estas excelentes férias é a de ele dizer que, quando Antínoo estava na cidade, rodeado dos luxos que a sua relação com o imperador lhe permitia, não perdia nada da sua beleza ou sensualidade mas ficava indolente, relaxado, mas, e esta é a parte que me interessa, quando saiam para o campo (Adriano viajou pelo império todo), Antínoo recuperava, como que por milagre, toda a sua vivacidade e graça, como um belo animal que finalmente está no seu ambiente.

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Não tenho de memória a descrição exacta desta passagem do livro mas asseguro-vos que é algo que vale bem a pena ler.

E é isso que, não só sinto, como observo em mim próprio. Movo-me melhor, desde que saí de Lisboa nunca mais tive de tomar uma aspirina para as dores de cabeça (coisa que faço amiúde), assoo-me de manhã e não mais durante o dia, não me dói o pescoço, como bem e não tenho problemas de digestão, os intestinos funcionam como um relógio, nunca me doem as costas, durmo perfeitamente e, não obstante o esforço de alguns dias, nunca acordo cansado… enfim, no que fisicamente me diz respeito, há aqui algo a que devo prestar atenção.

Após este aparte… e a viagem? Dormi duas noites no parque de campismo Markádia, na barragem de Odivelas e, apesar do tempo não estar nada de feição, foram dois dias muito divertidos. Vizinhos humanos tinha um holandês enorme, sozinho numa tenda grande, cuja a única actividade era comer e sentar-se a olhar a barragem e a ler; um casal francês que me sorria quando nos cruzámos e que se entretinham a olhar os pássaros com binóculos, um casal de alemães na mesma actividade e um senhor inglês que encontrei duas vezes e que na sua bicicleta desdobrável me saudava com um sonoro “jolly good morning”, apesar do tempo teimar em desmenti-lo. E depois toda a restante vizinhança que me deliciava e me fazia estar que tempos a olhá-los e a tentar suborná-los com migalhas e pedaços de maçã; os coelhos, pequeninas bolas de pêlo nervosas e curiosas que pareciam estar sempre a debaterem-se entre o medo e a curiosidade. Por vezes, estava eu a fazer qualquer coisa e lá via um ou dois deles a olharem-me, sentados nos quartos traseiros com as enormes orelhas erectas, assim que me movia, regra geral para os tentar fotografar, já só via os pompons dos seus rabos numa corrida desenfreada. Havia também aves; os patos dentro de água que ao me verem mergulhavam e que à noite faziam um escarcéu dos diabos antes de irem dormir, as pegas-azuis, gulosas e descaradas como nunca tinha visto num pássaro, vi uma poupa, que tem tanto de bonita como de medrosa; os melros espertalhões que estão sempre a ver o que alguém está a fazer; as corujas, ou mochos, invisíveis e cujo grito gera o silêncio na mata; as cegonhas com o seu matraquear quando estão no ninho; os pardais, iguais aos que vivem comigo, alegres e brincalhões, um bando chilreante; as andorinhas sempre surpreendentes na sua velocidade vertiginosa. As árvores fazem igualmente parte de todo este deslumbre que pode parecer pueril, mas talvez seja mesmo esse o seu encanto . Lá diz o meu companheiro de viagem que quando uma criança explora um buraco, ou um recanto na natureza, inaugura o mundo.

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E, hoje de manhãzinha, quando me estava a vir embora, fui presenteado com uma perdiz e gosto de imaginar que tinha uma ninhada e que fizeram exactamente aquilo que o Thoreau disse que faziam; ficaram imóveis, confundindo-se com as folhas secas, e só a mãe moveu a cabeça ao ver-me passar. Foi o momento do dia.

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Para mim, que não passo dum saloio da cidade, estes dias foram um fartote.

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E lá vim eu, mais o vento que parecia que até hoje sempre tinha estado preso… e a chuva também. O caminho da barragem de Odivelas até Alcácer do Sal, onde vou pernoitar é digno de ser repetido em condições mais amenas.

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A quem viaja de bicicleta é-lhe dado a ver até as mais pequenas coisas. Ao ir para Castro Verde eram centenas de pequenas lagartas escuras e peludas que atravessavam o alcatrão numa velocidade impressionante em tal animal. Hoje foi a vez de ver três salamandras, infelizmente estavam esmagadas na estrada… teria gostado mesmo muito de ver uma viva

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Passei no Torrão, terra muito simpática, e na praça em frente à junta de freguesia, uma vintena de velhotes conversavam. Enquanto eles me olhavam, sem dúvida interrogando-se sobre quem seria esta ave rara a pedais, veio logo o maluco da aldeia, jovem, ter comigo, a sorrir e a ordenar-me: dá-me um cigarro. Só de enrolar – respondo eu – tá bem, tu enrolas – responde ele, sem nunca deixar de sorrir. Sorri também e enrolei-lhe um cigarrinho perfeito, e lá foi ele todo contente mais o seu guarda-chuva cor de laranja.

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Perguntei aos antigos porque raio se chamava aquela rua assim… nenhum me soube responder, nem sequer um que vive nessa rua e que já em pequeno lá ia buscar água.

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E continuei em direcção a Alcácer, com a barragem do Vale Gaio a tentar-me a cada curva da estrada.

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Tive a sorte de reparar numa tabuleta meio escondida e aí fui eu pisar este caminho com cerca de dois mil anos. Os romanos sempre foram para mim motivo de admiração, por várias razões. Os melhores soldados, os melhores engenheiros, os mais sagazes políticos, os mais tolerantes em matéria de religião (até à chegada do idiota do Constantino) e, não obstante os sacrifícios de animais, sempre respeitadores e temerosos da Natureza.

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Do Torrão até Alcácer há rectas que parecem nunca mais acabar mas que estão longe de serem planas. Vão subindo quase sem se dar por isso, e de súbito é-se brindado com uma descida. E há também tentações imprevistas no meio do nada…

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Como uma sanduíche de presunto num lugar chamado Casa Branca e fico a conhecer, só de ouvir as conversas alheias na tasca, o “Cú de Ovelha”, que é um “pantomineiro dum cabrão”. Estou a acabar de fumar quando chega o Cú de Ovelha, e não é que o pobre do homem tem uma cara mesmo estranha a quem a falta de dentes não ajuda. Vou-me embora a rir-me, para dentro claro.

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Passo numa terrinha que de alguma forma me impressiona, Barrosinha. Do lado esquerdo da estrada a Companhia Agricola da Barrosinha (ou algo assim), um edifício grande e imponente que faz pensar noutros tempos… e do lado direito, uma fileira de casas humildes, mesmo à beira do alcatrão, que suponho pertencessem aos empregados da companhia. O contraste entre a companhia e as choupanas é gritante, a primeira domina-as. E a seguir um estádio de futebol, completamente em ruínas, apenas os azulejos na frontaria ainda possuem na cor a vivacidade original, é, ou era, o Sporting Clube da Barrosinha. Soube o meu Amigo Luís Elias contar-me a história desta terra.

E acabo por entrar em Alcácer debaixo de chuva. Gosto tanto desta terra e está tão maltratada, muito longe do que eu idealizava. Para além da confusão arquitectónica estão a decorrer obras na marginal. Parece que houve uma guerra.

Acabo por escolher o parque municipal de Alcácer do Sal e subo a estrada pouco confiante na minha escolha. Afinal é um pequeno parque, muito bem cuidado e que me cativa logo pela recepção que, no meu imaginário, se assemelha a um posto fronteiriço num campo isolado.

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É aqui que vou dormir (o terreno onde armei a tenda é excelente), chove a sério e após ter jantado muito bem e ter rematado com um café e um medronho estou em grande. Juntando a isto, todas as demonstrações de Amizade que tenho recebido, é difícil não me sentir com cinco metros de altura e ir dormir como um bebé.

A todos, um grande abraço.

Pit Stop com Migas e Tinto…

March 24, 2013

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A noite passada em Castro Verde foi tranquila, a chuva caiu com força, ao ponto de me acordar por segundos, e, quando me levantei estava tudo lavado, mas a planície alentejana permite ver ao longe o que aí vem e, as nuvens negras não deixaram margem para dúvidas, ia ser uma manhã daquelas.

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Entretanto descobri aqui uma loja da Bikezone e às 09:30 já lá estava plantado à porta para reparar a roda traseira que continuava com um raio a menos e da qual esperava a cada instante que se partisse outro, e assim sucessivamente até a roda ficar sem reparação possível. Pontualmente às 10:00 lá chegou um rapaz novo num jipe com o logótipo da loja que logo sorriu ao ver-me.

Conversa puxa conversa mas nem quinze minutos depois já a roda estava reparada e a bicicleta pronta a rodar. Excepto pelo tempo; chovia como se não houvesse amanhã.

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Continuei na loja à conversa com o Gonçalo, também um adepto de grandes pedaladas, e fiquei a saber que o Alentejo, ou pelo menos nesta zona, é rico em rapaziada que gosta de pedalar e, como se fosse de propósito, passava hoje em Castro Verde a volta ao Alentejo em bicicleta. Lá nos despedimos, pois ele queria ir ver os atletas passarem, não sem antes me avisar que se eu necessitasse de alguma coisa bastaria ligar-lhe que ele ir-me-ia desenrascar a qualquer sítio. A típica amizade alentejana adicionada à empatia que uma bicicleta carregada de alforges gera.

Recordo-me amiúde do livro Viagens Com Charlie, do grande John Steinbeck, onde ele descreve de modo delicioso a inveja saudável que a sua viagem, numa auto-caravana, gerava nas pessoas com quem falava, nomeadamente um rapazito que depois de mil rodeios se ofereceu para fazer todos os trabalhos desde que também pudesse ir. Este tipo de inveja nem sequer deveria ter este nome.

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Depois fui até um café ver a chuva cair, e ali estive. Passou a GNR, passou a volta, passou muita gente, só a chuva é que teimava em não passar e uma olhadela ao telefone, eram 12:00, e outra ao cartaz onde se enunciava a ementa fez com que optasse por almoçar umas migas com carne frita e um jarro de tinto… só porque tinha os pés frios.

Remédio santo, não só aqueci como assim que saí do restaurante a chuva foi-se embora. Eu é que já não estava em condições de ir fazer setenta e tal quilómetros e acabei por regressar ao parque de campismo para montar a tenda e dormir a sesta.

Em suma, um regalo.

E dei por mim a fazer uma espécie de balanço, prematuro, sobre o que têm sido estes dias.

Antes de mais, a minha experiência é limitada e a internet contém conselhos de pessoas cujas viagens de bicicleta pelo mundo as tornam verdadeiras especialistas e que vale a pena ler com atenção. Mas, é certo e sabido que duas cabeças pensam melhor que uma e acho que o mesmo se aplica às opiniões.

O material… não me parece que valha a pena gastar uma fortuna para estar a contar as gramas de carga que se vai levar, embora convenha não perder de vista que grama a grama se faz um quilo. O volume das coisas, saco-cama, colchão, tenda, roupa, etc., é também um factor a ter em conta, principalmente porque o aerodinamismo não é um mito; o facto de levar dois sacos demasiado grandes no porta-bagagens frontal já várias vezes me custou um esforço extra, principalmente quando o vento está contra.

Mais tarde voltarei a este tema, que é um bocado seca, por agora posso afirmar que a tenda, o colchão e o fogão, estão aprovados. O saco-cama, esse revelou-se demasiado volumoso. É um artigo militar já com mais de vinte anos e actualmente existem sacos com um quarto do peso deste, um terço do volume e o dobro da capacidade de aquecimento. O mesmo se pode dizer do blusão de penas. seja como for são duas peças indispensáveis para viajar nesta altura.

A bicicleta é a mesma que me tem servido há mais de seis anos, não sendo a mais apropriada nem uma topo de gama, tem-se portado lindamente. Excepção feita à roda traseira que não é a original. Os pneus, 700 x 28C, também não serão os mais indicados, talvez demasiado finos, 700 x 35 seriam melhores, mas até agora não houve nenhum furo.

E a atitude, que é o principal, seja na estrada, seja fora dela. Na estrada tenho adoptado o comportamento que tenho na cidade, ou seja, independentemente do que diz o código da estrada, comporto-me como alguém que tem o direito a circular nas estradas, excepção óbvia de IP e AE, e nunca me dei mal com isso. É claro que faço por incomodar o menos possível os automóveis, circulo pela berma ou, em caso desta não existir, o mais à direita possível sem comprometer a minha segurança. Quanto ao campismo, seja em paraísos como a Quinta de Odelouca ou colmeias como o Turiscampo, a politica é a que deve ser sempre; não deixar rasto.

Dentro em pouco vou dormir pois amanhã quero arrancar cedo para compensar este dia dedicado ao descanso… esta frase não saiu famosa, é que descanso tem sido tudo isto, um descanso muito saudável em todos os aspectos.

E ainda, de manhã tive uma notícia que me alegrou muito; a bicicleta do homem que veio da China até Portugal e que foi roubada em Sines apareceu atrás dum canavial com o material ainda todo e já foi despachada para esse admirável chinês. Não me parece difícil imaginar a razão pela qual o ladrão a abandonou… a ocasião faz o ladrão, mas não isenta ninguém de sentir vergonha de si mesmo.

Entretanto passei mais uma noite, bem chuvosa, em Castro Verde, e antes de adormecer decidi que, com chuva ou sol, far-me-ia ao caminho em direcção a Markádia, uma dica da Thea e Humberto.

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A manhã começou molhada, depois abriu, e lá fui eu…

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Até Aljustrel, depois Ferreira do Alentejo, Odivelas, mais uma dezena de quilómetros e cá estou eu dentro da tenda. A N2 é uma estrada muito boa para pedalar embora por vezes, como de Castro Verde até Aljustrel, ponha à prova a paciência duma pessoa, tal é a extensão das rectas. Daí para a frente torna-se mais sinuosa o que dá um certo sal à viagem. De amargar foi o vento, não só estava contra como estava, e está, furioso. Foi ele o único responsável por não ter desfrutado ainda mais do passeio, que, ainda assim, foi uma bênção para os olhos.

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E não só… gosto mesmo muito desta zona do país, desta largueza, e das pessoas que cá vivem também.

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Chegado às imediações de Aljustrel paro num tasco à beira da estrada para um café. Saio, enrolo um cigarro e fico ali deliciado. Nisto chega um jipe e sai um homem grande e forte, de barba, roupa de trabalho, parece bruto que nem uma casa mas o seu olhar desmente as aparências. Acompanham-no uma cadela pequena e o um dos maiores cães que já vi e dos mais gentis também.

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Cumprimenta-me com um bom dia quase inaudível e vai para a tasca. De seguida chega outro homem de bicicleta, uma pasteleira das antigas, olha para a minha e oferece-me um enorme sorriso onde três ou quatro dentes se mostram orgulhosos. Fico a dar festas no enorme cão e quando estou quase a acabar saem os dois homens da tasca e, pela conversa, percebo que o ciclista tem um problema com um animal e que o grandalhão, parece o Bud Spencer, é o veterinário. Faz umas perguntas acerca do estado do animal e receita-lhe um medicamento, o outro parece meio encabulado e o veterinário tem esta saída que me fez logo ser amigo dele: – Vai lá tratar do bicho, isso é que interessa. Caro? Aquilo é barato, precisas de dinheiro para aviar isso?

Há quem não se renda ao espírito dos tempos.

Sigo o meu caminho e às vezes pessoas que passam de carro apitam e acenam ou fazem o sinal de ok. É giro isso.

Subo até à aldeia de Odivelas, afinfo-lhe numa sanduíche e numa gasosa e fico a saber que ainda me faltam cerca de dez quilómetros. Toda a gente me diz que o meu destino, Markádia, vale a pena. Embora em Castro Verde, Ciryl, um amigo inglês me tenha dito que era um pouco caro. Este Ciryl tem oitenta e quatro anos que fariam inveja a muita gente, ri facilmente e conta-me que quando se reformou, vendeu a casa e agora vive na sua auto-caravana. Conhece Portugal desde 1954 quando foi a Peniche, contou-me que na altura foi comprar peixe e disse que os portugueses deviam ver-se livres do salazar. Diz que nunca mais se esqueceu da cara aflita das pessoas, a fazerem schhh para ele se calar e a olharem em volta.

Ele, como todos os estrangeiros com quem falo, têm a mesma opinião: What a beautiful country this is. You’re lucky but you should take better care of it. 

É verdade, não é? Devíamos não só cuidar melhor disto como aproveitar e rentabilizar, de uma forma sã, todo este potencial. Quanto ao lixo na berma das estradas (acreditem ou não, há “pessoas” que preferem urinar numa garrafa e deitá-la pela janela a saírem dos seus preciosos carros), mais os sacos e as garrafas e as mais variadas coisas. Fico imbuído dum espírito algo bárbaro e acabo a considerar que bem se podia cortar uma mão a quem demonstra tanto patriotismo.

Mas, apesar de eles, os estrangeiros não os bestas, terem razão, é mesmo uma terra muito bela e o sítio onde estou agora é bem prova disso. Embora não propicie a intimidade da Quinta de Odelouca, é um local maior e se alguém, pelo menos nesta altura do ano, quiser  uma tranquilidade quase irreal, este é um sítio para isso. Fica nas margens da barragem de Odivelas e vou passar aqui o dia de amanhã.

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Como brinde ainda pude comprar ovos caseiros. Amanhã de manhã, com salsichas alemãs e o pão que as senhoras me trarão da vila, vai ser um festival de recuperação. O vento, esse, continua como se todos lhe devessem e ninguém lhe pagasse.

Já lavei roupa (e o cheiro antigo do sabão azul branco?!) e agora vou tratar da janta que o dia foi puxado.

A todos, um grande abraço, cheio de perfumes, passarada e muita, muita largueza.

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Arriba-te e Faz-te à Pista…

March 22, 2013

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Há já uns dias que a minha bicicleta não se desencostava da oliveira, aliás, desde que cheguei à Quinta de Odelouca e a encostei que nunca mais se moveu.

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Não, não estamos zangados, longe disso, nem me aflige qualquer dor que me impeça de pedalar, o facto é que estes caminhos não são os mais indicados para os meus pneus e, assim como assim, prefiro andar a pé pelos montes só a vadiar ou ir à vila comprar algo necessário.

A noite de anteontem tinha sido bem fresquinha, eufemismo para dizer que quando me levantei o termómetro marcava dois graus negativos e o sol já se adivinhava atrás dos montes a este (faço sempre o possível para que a tenda fique com as duas janelas viradas a este e oeste), pus a água a aquecer para o imprescindível café e fui à casa de banho. Quando voltei já fervia e pude estar a beber café bem quente e a comer pão com queijo de cabra enquanto o sol se vestia para aparecer.

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Tive ainda tempo para ir dar a costumeira volta até ao lago… exceptuando um animal ou outro, que se está a preparar para ir dormir ou que, como eu, acabou de acordar, nada mais bule neste cenário. Não obstante o frio levava os chinelos calçados e os meus pés ficaram inicialmente brancos para depois irem avermelhando, doeram-me até ao joelhos mas é uma dor agradável, semelhante a quando se entra no oceano após estar muito tempo ao sol. Não houve um dia que não fizesse este cerimonial e acho que é facilmente perceptível a razão que me impele.

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Ao nascer do dia nem uma folha se movia mas foi-se levantando vento e as previsões para os próximos dias não eram as melhores.

É um hábito enraizado este de acordar cedo mas que ali ainda se acentuou mais e que me fez encontrar ainda mais sentido ao fazê-lo. A cidade é outra coisa quando se acorda cedo e o campo consegue ser ainda mais o que é, uma infinidade de coisas que geralmente se escondem no sol ou na noite e que só na transição se conseguem testemunhar, como um ouriço cacheiro que tive de fazer muita força para não o agarrar, já que os acho dos bichos mais simpáticos, ou os sapos grandes que preferem estar quietos em vez de mergulharem mal sentem uma ameaça. Houve um deles que teve azar…

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Gostei mesmo muito de estar neste parque de campismo pertencente a holandeses, é um ambiente simples, natural e humano, muito convidativo.

Anteontem, depois de ter estado na aldeia regressei por outro caminho, mais longo e mais selvagem, por momentos até julguei que me tinha perdido e liguei o GPS do telemóvel e ele confirmou-me que ainda estava no trilho certo. Após duas horas e meia a caminhar na serra, descalçando-me para atravessar os pequenos riachos que a chuva dos últimos dias engrossou, acabei por ir dar ao caminho certo.

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E, momentos após ter chegado, Ari, um dos caravanistas que aqui está com a mulher, e que no primeiro dia tinha estado à conversa comigo, veio convidar-me para uma tradicional bebida ao fim do dia, na happy hour, entre as 16:30 e as 18:30 no alpendre da casa. Ali estivemos a conversar e a beber uma cerveja que após a longa caminhada me soube raramente bem.

Conversou-se sobre os países e sobre a Europa e a esta crise que, como uma humidade bolorenta, se consegue infiltrar em tudo. Tal como sucede em Portugal, também na Holanda as pessoas sentem-se algo nervosas com tudo isto, não percebendo o que terão elas feito de errado para terem de se sacrificar. Na Holanda, segundo eles, há uma minoria, com tendência de crescimento, que começa a considerar a UE uma ideia a abandonar, mas a maioria ainda vê nesta união uma coisa muito positiva, não só porque a Holanda já ganhou muito dinheiro devido ao livre trânsito do espaço Schengen mas porque esta união, por muito ineficiente que por vezes seja, já lhes permitiu, a eles e a todos, termos quase um século de paz na Europa. Isto para países como a Holanda e a Bélgica que, cada vez que houve guerras, viram-se entre os dois principais antagonistas, França e Alemanha, tem uma grande importância.

Ari, nome que provém de Adrian, como o Imperador, tem mais ou menos a idade do meu amigo Bernard, e pude constatar que ambos ainda se recordam da fome quando eram crianças e de como só viram bananas e laranjas, por exemplo, quando já eram adolescentes.

Ari é uma pessoa muito simpática, enorme, de barba, se lhe colocássemos uma indumentária vicking não destoaria. Conversámos bastante acerca da bicicleta como meio de transporte. O facto de as crianças holandesas aprenderem a andar de bicicleta logo a seguir a aprenderem a caminhar não é um mito. Contou-me que quando era novo, com a mulher, Ineke, e os dois filhos, atravessou a França de bicicleta e que ainda hoje se recorda de ver o seu filho mais novo, na altura com dez anos, a chorar a meio de uma subida quando os restantes familiares já a tinham ultrapassado. Mais tarde, quando acamparam, e para grande desespero do pai, o puto disse que nunca mais andaria de bicicleta. Hoje, um adulto com trinta e cinco anos, trabalha numa loja de bicicletas e o cicloturismo já o levou a meia Europa, incluindo trechos muito duros como os Alpes ou os Pirinéus.

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Foram duas horas de convívio muito agradáveis, muito leves, e, segundo Ari me tinha confidenciado, Humberto não estava muito contente com a pouca afluência do parque, e, assim, foi engraçado ver como se alegrou quando chegou um casal jovem de carro. Nacionalidade? Holand.

Ainda tive oportunidade de estar um pouco à conversa com um pastor, não o fotografei, é claro, mas para quem conhece, era algo parecido ao grande Tomás Afonso. E vê-lo a lidar com a matilha que o acompanhava foi realmente algo fantástico. Sem se mover do sítio onde estávamos, dava um grito a um cão específico e ele lá ia cumprir a sua função; “vai Peseta, vai! Eh, Preto, vai de volta, olhá gaja… vai! Aí, Princesa, ai!” – e, para minha delícia por razões que apenas alguns compreenderão: “Ah, canzoada dum cabrão!”. E tudo corre ali direitinho.

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Thea disse-me que gostaria de ver mais portugueses acamparem. Eu também.

Eu estive em grande, de tal modo que me comprometi comigo próprio a ir-me embora hoje, sexta-feira, dia 22. É fácil perder a conta aos dias e quanto às notícias… na vila vi o site da SIC Notícias, onde habitualmente me informo e folheei o inevitável Correio da Manhã e a única notícia que realmente me chamou a atenção foi a do fulano que supostamente se perdeu durante uma semana e sobreviveu graças a uma garrafa de vinho. Já me tem acontecido o mesmo mas nunca me perco por uma semana e não arranjo desculpas dessas.

Walden, de Thoreau, foi a escolha acertada para a viagem. As suas considerações assentam neste tipo de deambulação de uma forma perfeita. Acho que deveria ser leitura obrigatória na escola. Aqueles que o consideram um radical não o leram com a devida atenção, em parágrafo algum se advoga o regresso à vida original vivendo em tocas e comendo mirtilhos e o que estiver à mão, é, simplesmente, um alerta para que não ignoremos com arrogância o muito que a natureza tem para oferecer e que não nos entreguemos sem pensar duas vezes ao consumismo. Claro que isto foi escrito no século XIX, só que o passar dos anos não o tornou obsoleto mas sim cada vez mais actual.

Ler os seus pensamentos é encontrar por vezes, muitas vezes, pontos coincidentes com os meus. E relativamente ao jornalismo, negócio das novidades que, convém não esquecer, é o que me proporciona os meios, ainda que modestos, para estas minhas férias e a alguns dos leitores igualmente o meio de subsistência, a sua opinião é digna de ser transcrita:

Se já lemos a respeito de um homem assaltado ou assassinado, ou morto num acidente, ou de uma casa incendiada, ou do naufrágio de um navio, ou a explosão de um vapor, ou de uma vaca atropelada no Caminho de Ferro do Oeste, ou da morte de um cão raivoso, ou de uma nuvem de gafanhotos no Inverno – nunca mais precisaremos de ler a respeito de coisas semelhantes. Basta uma vez. Se a pessoa já se familiarizou com o princípio, que importam os inumeráveis exemplos e aplicações?

Dou por mim a pensar, este homem, que se recusou a pagar impostos por estes serem utilizados em coisas com as quais discordava em absoluto, como a escravatura e a guerra com o México, como reagiria ele nos dias de hoje ao ter, por exemplo, de pagar pela ganância arrogante e expectável dos banqueiros e pela venalidade pomposa e sabuja dos politicos? Num café uma televisão debita o esterco (que lhe chamar?) proveniente da politica, num relance vejo o merdel ervas e só me dá vontade de rir apesar do caso ser mais de chorar. Que figura…

E agora que escrevo já estou confortavelmente sentado numa sala do parque de campismo de Castro Verde. Gosto muito desta terra e, apesar do parque ser modesto em tamanho e árvores, os equipamentos são acima da média. Uma curiosidade é os frequentadores deste parque serem quase todos finlandeses, povo que ainda não tinha encontrado em nenhum parque. Uma curiosidade é o facto de nesta sala de convívio para além de alguns livros em português, a maior parte de livros, revistas e até cd serem em finlandês, tal como os avisos nas instalações estarem escritos em francês e finlandês. Aparentemente são visitas habituais.

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O caminho da Quinta de Odelouca até aqui não foi o que se chama uma pêra doce, a serra do Caldeirão é realmente muito bela de se ver, com o contínuo som de água a correr nos inúmeros ribeiros e riachos, mas uma coisa que ela não é, é amiga dos ciclistas, ainda para mais se estes não tiverem a carga bem arrumada e estiver um vento forte.  Mas uma sanduíche de presunto e uma cerveja preta e o peso já bem distribuído, permitiram-me chegar relativamente fresco, o suficiente, pelo menos, para estar aqui a escrever e ainda ir fazer o jantar.

Pelo caminho tenho ainda tempo, oportunidade e disposição para contribuir para um estudo sobre a semiótica da sinalização de hospedarias em Portugal, esta é realmente especial, tenho pena de não a ter visto iluminada…

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Sabe sempre bem ver, ainda que ao longe, o sítio onde se vai descansar, e nisso, o Alentejo, é aquela maravilha.

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E, claro, encontrarei sempre gente conhecida, vá eu onde for…

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Tento variar o máximo possível a minha alimentação, mas, regra geral, como leguminosas; feijão, grão, ervilhas, com tomate e umas rodelas de chouriço, ou massas com molho de tomate e queijo ralado. Bananas e laranjas complementam a coisa. O pequeno almoço é quase sempre café e pão com manteiga ou queijo de cabra. E mais fruta.

E agora, que já estou tratado, vou dormir que amanhã tenho mesmo de ir, não sei ainda é onde.

Abraços

 

“Sempre Chegamos Onde Nos Esperam”

March 20, 2013

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O ocaso já se deu e o ar está bem fresco, cheio de cheiros e de ruídos, ambos simultaneamente novos e familiares. Coaxam rãs numa discussão ordenada, aves que desconheço piam, uma tenho a certeza de que se trata de uma coruja ou de um mocho, dado o tom lúgubre, de algures vem o balir de ovelhas, os cães ao longe, e até o som de uma motocicleta surge de vez em quando sem ser ofensivo. O céu é uma bebedeira de estrelas que convida a dormir ao relento, o que a temperatura, em Março, ainda nega.

O parque de campismo do Alvor era aceitável, aliás, confirmando a opinião de um casal canadiano, os parques de campismo em Portugal são muitos e com boas condições. Mas raramente me dão exactamente o que quero, para além do descanso e das infraestruturas. Falta sempre qualquer coisa e eu sei bem o que é… é a sensação que só o campismo selvagem pode oferecer. O isolamento, o silêncio.

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As pessoas no parque do Alvor foram muito simpáticas e pude conhecer uma porca chamada Olivia que é um animal de estimação. Gostava de poder dizer que é inteligente mas disso o único exemplo que pude observar foi afastar-se quando percebeu que eu não lhe ia dar petisco algum. Bonita também não será o termo e a elegância também não lhe calhou na rifa (digo eu, que não sendo porco lá vou fazendo as minhas bacoradas). Enfim, é, pelo menos, asseada.

A clientela de todos os parque que frequentei eram, invariavelmente, holandeses e alemães, alguns ingleses e poucos franceses. E eu. Acho que não vi um português, excepto em São Torpes, que tropeçou numa das espias da minha tenda. Todos são muito simpáticos e é raro alguém passar por mim sem dar uma saudação. Habituei-me facilmente a fazer o mesmo.

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Lá me fiz à pista mais uma vez, sob um excelente dia de Primavera. Tinha algumas dúvidas acerca de como iria correr o dia, já que a distância era razoável e o percurso era maioritariamente serrano. Cheguei a Silves ainda fresco e parei, já a saída da cidade, para beber um café e fumar um cigarro. Passa uma senhora, muito velhinha e curvada, que não pode deixar de dizer bom dia e cruza-se com uma menina que deve ter uns oito ou nove anos. A velhota sai-se com um: – olá, menina. – ao que a pequena responde: olá! – e, apontando para o conjunto de seis pacotes de leite que a senhora transporta, pergunta: – quer ajuda? – e tem como resposta: – não filha, deixa, é muito pesado para ti. – e lá seguem cada uma para seu lado.

Acabo de fumar e de pensar que há muitas coisas diferentes para além da paisagem. E lá vou eu, de calções e com uma camisola às riscas. Ao passar num ajuntamento de casas na serra, dois homens estão junto à estrada, levanto a mão quando passo por eles e, como vou devagar ainda ouço um dizer: “estis é ca sabem toda!”

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Não a sei toda, mas sei que a tirada foi mais fácil do que julgava (não sei porquê, mas pedalar no campo parece ser menos cansativo do que em vias citadinas), e sei também que estão a ser as melhores férias de sempre.

Surge na estrada, a seguir a uma curva, um enorme lagarto a atravessar a estrada, mas quando digo enorme, estou a dizer que da ponta da cauda à cabeça tinha seguramente mais de um metro. Acho que nos assustámos ambos (os dois, porque segundo ouvi do nosso ministro mais ilustre, aquele que anda sempre em busca do conhecimento, pode-se dizer “ambas as três”), eu travei e ele raspou-se em menos de nada.

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Depois lá fui subindo até São Bartolomeu de Messines que é uma cidade muito simpática, cheia de vida, sem um sinal do abandono que se sente nas terras onde o turismo é mais predominante. Tudo aqui parece estar no lugar certo, até o Cabo da GNR que conversa com um homem e abana a cabeça, resignado, ao ver um velhote numa carripana fazer a rua toda fora de mão. Peço-lhe indicações, que se revelarão certas e ainda lhe pergunto se vale a pena o meu destino. Sorri e diz, vá lá que vai gostar. Boa viagem.

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Agora a estrada é o IC1, a estrada antiga que provavelmente todos, ou quase todos, fizemos antes de concluírem a autoestrada. O piso é bom, a paisagem é bonita, e é quase sempre a subir, mas com um ritmo calmo faz-se sem um exagero de cansaço. Tanto assim é que a seguir a ter visto a indicação que procurava ainda fiz mais uma hora a pé, com a bicicleta pela mão, por uma estrada de terra batida que serpenteia pela serra. Mais um sinal, e outro, e outro, e eu sempre admirado com as paisagens e a pensar que isto ainda vai dar asneira.

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Não foi à toa que, após a minha última viagem a Peniche de bicicleta, prometi nunca mais me meter em caminhos não alcatroados.

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Eu cada vez mais suado, a paisagem cada vez mais bonita e, de súbito, a seguir a uma curva e uma subida, eis um cenário de sonho

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e mais um pouco ainda venho a descobrir, como correctivo para o meu pessimismo, que esse cenário é o Parque de Campismo da Quinta de Odelouca. Paro à entrada para vestir a camisola e à distância, alguém que está a cavar me acena, aceno de volta e entro, ao encontro do homem que larga a pá e vem ter comigo, suado, vermelho e sorridente. Como vai sendo habitual, julga-me estrangeiro, mas lá nos apresentamos e fico a saber que ele é holandês e que se chama Humberto. O nome soa-lhe melhor do que o seu nome original, Bert.

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Subimos em direcção à casa onde é a “recepção”, neste caso o alpendre onde me convida a sentar e me pergunta o que quero beber. A seguir, a sua mulher, Thea, muito simpática, vem ter comigo e após conversarmos um bocado, pede-me os documentos e mostra-me as instalações, que são muito boas, simples e de muito bom gosto. Entrega-me ainda um mapa para que eu não me perca na serra se decidir ir passear e um pequeno dossier com informações úteis, muito bem compilado, que terei de devolver à saída.

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Só mais duas caravanas, de holandeses claro, estão no parque. O cenário é tão paradisíaco que contrariamente ao hábito, antes de montar a tenda ou qualquer outra coisa, me deito na erva a fumar o primeiro cigarro em várias horas. Depois de tudo montado vou dar uma volta pela ribeira… A intenção de só ficar uma noite já se desvaneceu.

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A juntar a isto, a simpatia natural destas pessoas. O pormenor de oferecer assento e uma bebida a quem chega, a facilidade do check in e a preocupação em saberem se preciso de alguma coisa, o respeito pela privacidade, o sentido prático e o gosto simples mas muito agradável, fazem deste casal um exemplo de como se deve tratar os clientes, sejam eles um casal numa auto-caravana do último modelo ou um ciclista. Perguntam-me se preciso de electricidade, respondo que apenas preciso de carregar a bateria do meu computador e do telemóvel. Dizem-me que isso não conta, que o posso fazer em qualquer lado. Ontem, em Alvor, paguei um euro por cada aparelho que necessitei de carregar. Não é pelo valor em si, é pelo espírito da coisa, até os autocolantes com o logótipo do parque, que, na minha perspectiva, serviriam para oferecer aos utentes a fim de divulgarem o parque, custam um euro.

Mas isso é lá atrás, aqui o campeonato é outro. Como me disse o Humberto, enquanto me mostrava um álbum de fotografias que demonstra a evolução do parque desde um campo com uma casinha alentejana até aos dias de hoje: “queremos ser uma alternativa, marcar a diferença”.

Da minha parte, fazem-no lindamente e eu tenciono voltar aqui.

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Entretanto o dia de ontem foi de chuva ininterrupta, apenas saí da tenda por breves intervalos em que a chuva parou. Como a minha internet parece não se dar muito bem naquele recanto, acabei por me dedicar a ler e pouco mais.

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E hoje, dia 20, na mesma filosofia das subidas e das consequentes descidas, o dia nasceu quente e apenas com algumas nuvens. Foi um despertar dentro de outro despertar e, a seguir ao café, tive de ir dar uma volta. Não me ocorre higiene maior que isto, passear no campo a seguir a acordar, ir lavar o espírito antes de ir lavar o corpo

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E depois do duche, vestir uma camisa lavada, trincar qualquer coisa, conversar um pouco acerca do belo dia que está com os meus vizinhos e hospedeiros e, a seguir, ir até São Marcos da Serra, comprar umas coisas, encontrar um multibanco, beber a bica e, acima de tudo isto, desfrutar de uma hora de caminho, a pé, até à povoação

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É bom ter um destino e não ter pressa de lá chegar, e assim, calmamente, entretido a ver o que me rodeia e a ouvir o som dos meus passos no chão, como na música Grândola Vila Morena, lá entro em São Marcos da Serra cujo dia se celebra a 25 de Abril.

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Obviamente que as fotografias, num acto de egoísmo meu, fazem por substituir as descrições e impressões que tudo isto me causa e poupam-me tempo que necessito para não fazer nada a não ser deambular. Posso, no entanto, garantir-vos que quem confiar no meu julgamento e vier à Quinta de Odelouca não me tomará por mentiroso.

Até amanhã… ou depois.

PS – A todos a quem este blog agrada e que não se coíbem de o expressar das mais diferentes formas, um grande abraço.

Marinheiros em terra e a pedais

March 17, 2013

Até ontem de manhã, ter deixado Sagres era para mim considerado um erro; não só tinha empenado uma roda (um raio que se partiu, raios o partam), como ainda tinha pernoitado num parque de campismo caro, que apesar das excelentes condições não era nada do meu agrado.

A seguir aos cerimoniais do café e do arrumar dos tarecos, lá me fiz ao caminho até Lagos na esperança de reparar a roda e partir as trombas a um bife e um jarro de vinho na Adega da Marina.

Não foi bem assim… foi muitas vezes melhor.

O fulano da loja que encontrei, alugava bicicletas e motorizadas e após lhe ter exposto o meu problema e pedido ajuda, foi pronto a despachar-me para Portimão. Teria assim de fazer mais um percurso com a roda naquele enervante estado e teria de esquecer o bife.

Lá me resignei e fiz-me ao caminho, mas, na última rotunda, decidi voltar atrás e tentar resolver a coisa, parecia-me impossível não haver na cidade quem conseguisse reparar uma roda.

Indicaram-me uma pequena oficina, numa pequena rua, algures no centro. É claro que não encontrei a loja, mas, num largo estava uma bicicleta com um atrelado, nada de moderno, uma coisa rudimentar, um pesadelo de aerodinamismo, e junto a ela estava um homem louro e um cão grande e negro. O homem sorriu-me e gritou-me: “Amigo”! Fui ter com ele, conversámos um bocado e expliquei-lhe o meu problema.

“Let’s go”, exclamou ele levantando-se com agilidade, notava-se bem que estava feliz por poder ser útil. Falou-me de um excelente senhor português que ele conhecia e que, generosamente, lhe tratou da bicicleta sem lhe cobrar nada. Gosto quando os estrangeiros dizem que Portugal é muito bonito, mas quando me falam dos meus compatriotas de uma forma tão elogiosa como o Bernard fez em relação a este homem e a algumas outras pessoas, GNR e PSP incluídas, é então que sinto um verdadeiro orgulho.

Lá seguiu o trio, ele, o cão e eu, pensando no que me estaria reservado mas disposto a confiar na sorte. O nosso curto passeio terminou junto à loja onde eu já tinha estado. Começa o circo, pensei eu. Mas não, não houve circo. mesmo ao lado da loja, existia outra loja de aluguer de bicicletas chamada Passeios do Sudoeste. Dela vinha um homem a sair que o meu mais recente amigo chamou, cumprimentaram-se com amizade e passado uns segundos já eu expunha o meu problema ao senhor Valter Domingos, que apesar de estar de saída, em cinco ou dez minutos me reparou a roda (sem ser possível substituir o raio) e me contou que também ele é adepto destas cenas a pedais e de dar uns valentes passeios.

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Não me cobrou nada, desejou-me uma excelente viagem e foi tratar dos seus assuntos.

Fiquei então ali, imensamente agradecido, contente da vida e disposto a ir comer o bife e convidar o meu amigo para almoçar comigo. Não me pareceu muito disposto a isso, começou logo por salientar que não se podia dar a esse luxo, mas quando lhe disse que fazia questão , lá acedeu. Mas na Adega só nos serviriam no interior, argumentando que não tinham pessoal para a esplanada. Acabamos por abandonar a adega e ir a um restaurante que o Bernard, é esse o nome dele, afiançou ter muito bom ambiente. E lá fomos.

O Bernard é alemão, educado, suponho que de uma família bem estabelecida em Hamburgo e desde novo que sempre gostou de viajar, fê-lo inicialmente como marinheiro em navios de pesca e, mais tarde, em gigantescos navios porta-contentores. Casou, teve um filho na terra natal e, passados cinco anos e um problema de coração devido ao tabaco e ao stress, decidiu que não queria viver uma vida convencional na Alemanha e partiu.”To much money power, man…”.

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A descrição das suas viagens e histórias excede em muito o meu tempo e a minha capacidade de escrever, nem falando da sua admirável forma de encarar a vida… toda a Europa, Norte de África, Nova Iorque, Chicago, Detroit, L.A., toda a América Latina excepto Argentina e Perú. Uma nova mulher na Colômbia e duas crianças adoptadas. Equador, México, Guatemala, Panamá, Costa Rica, e por aí fora. Experiências com um xamã, confessa-se católico mas diz que god é dog e chama-lhe Manitou, foi assaltado alguma vezes, esfaqueado uma, fez algumas maluquices quando era novo dos quais não se orgulha, vive de pequenos trabalhos na recolha de metais usados, reparte as moedas que tem com quem precisa mais do que ele, ri quase sempre e sempre numa postura muito franca, muito saudável. Um homem invulgar.

 

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E depois o Chico. em relação a este ainda se torna mais difícil falar. Se alguma vez vi uma relação tão próxima entre uma pessoa e um cão foi entre estes dois seres. Chico (com pronuncia espanhola), é realmente um animal espantoso em todos os aspectos. Muito amistoso, brincalhão, obediente duma forma irreal, e irradiando simpatia e inteligência em todos os seus negros e ameaçadores quarenta e cinco quilogramas.

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Um par inesquecível que espero receber em Lisboa dentro de dois ou três meses como aquilo que são, dois Senhores.

E almoçamos, bebemos, rimos, fumámos… e entretanto surge um rapaz novo, louro, de rastas no cabelo comprido, a sorrir e a pedir ao Bernard se podia roubar uma batata frita. Estava, claramente, com fome. Era o Janus, um artista de rua, suíço, amigo do Bernard (que é amigo de meia cidade de Lagos) e a quem convidei para a mesa para comer connosco. Fez-se rogado, disse que não podia aceitar e lá fiz um negócio com ele: tocas uma música para nós e a seguir comes e bebes. Lá aceitou e tivemos direito a um excelente Summertime tocado num saxofone. Depois, lá se sentou mas só depois de pedir licença para ir buscar a sua namorada, Julia, romena, que não quis aparecer na fotografia. Dividiram entre ambos um prato de galinha e vegetais, conversamos sobre as nossas terras e sobre o mundo e foi uma tarde em grande.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAQuando terminou, ficamos os três e Bernard perguntou-me se tinha onde ficar. Quando respondi que iria para um parque de campismo, sugeriu que, caso não me importasse e quisesse poupar uns euros, poderia pernoitar no sítio onde ele se costuma acomodar quando vem a Lagos. Para ele o paraíso é em Budens, onde não fuma nem nem bebe, pois segundo ele, tem de cuidar do seu corpo para que possa tomar conta do Chico e continuar a viver “au naturel”.

Jantámos feijões e carne junto ao mar, no abrigo dos pescadores em Lagos, na marina e ali dormimos. Não montei tenda e para colchão tive as redes dos pescadores. Dormi como era suposto e acordei cedo com o cheiro do mar e o olhar carinhoso do Chico perto da minha cara. Que cão espantoso…

Ali pode-se tomar banho e dormir ao ar livre sem que haja problemas, todos conhecem o Bernard e têm por ele grande estima.

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A seguir a ter a bicicleta reparada pelo Sr Valter, tinha escrito o meu número de telefone no passaporte do Bernard e, como nada tinha para lhe oferecer, dei-lhe o lápis que tinha utilizado. Um lápis azul escuro com as constelações. Mais tarde, à noite, veio ter comigo e ofereceu-me o bule que o acompanhava há muito tempo. Fiquei tão sensibilizado e sem jeito que hoje de manhã reuni uma série de objectos que a ele lhe poderiam fazer falta. As pilhas que levava de reserva e que ele apreciou muito, pois as pilhas são caras e ele gosta de ouvir música, uns straps de plástico que podem sempre ser úteis, um púcaro de alumínio, algumas ferramentas, um isqueiro bic novo e com fito enrolada à maneira dos assistente de televisão, uma lata de creme nivea, enfim, coisas úteis a quem anda a viajar nestes moldes. À última da hora lembrei-me que ele tinha sempre dificuldade em encostar a bicicleta às paredes devido ao atrelado, de modo que  desmontei o descanso da minha bicicleta e montei-o na dele. Gostava de lhe poder ter dado mais alguma coisa mas a verdade é que trago pouca coisa e o que trago faz-me, ou pode vir a fazer-me falta.

E depois as despedidas, curtas e bem dispostas. Só o Chico parecia triste com a separação e conseguiu comover-me. Por quatro vezes voltou atrás para me vir tocar na perna com o focinho e olhar para mim ganindo baixinho, depois o Bernard chamava-o e lá ia ele. Mais uma e outra vez: que cão espantoso.

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Agora estou em Alvor, num parque de campismo tranquilo, já jantado e pronto para ir dormir para amanhã tentar fazer a serra até… bem, logo se vê.

Entretanto, há pouco quando fui tomar banho, outra surpresa, uma porca preta andava por ali a passear e a roer pequenos tufos de erva. Por momentos pensei que estava a ver coisas… vem então um senhor muito sorridente e chama em voz alta: “Sofia!” e não é que a p0rca atende ao chamado e vai, bamboleando refegos de gordura, roçar-se toda feliz da vida nas pernas dele?! Claro que não podia deixar de ir dar festas num bicho com tanto de inesperado como de castiço. E estive um bocadinho à conversa com o holandês sorridente que possui uma porca como animal de estimação. Lá diria o Pessa. “e esta, hein?”

 

 

Depois da serra, não há mais terra.

March 15, 2013

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Ontem, foi um dia em grande… se já tinha adjectivado algum dos dias anteriores como sendo “em grande”, ou “o melhor dia de viagem”, fi-lo apenas por ignorância. Ontem é que foi mesmo. A sério!

Acordei no parque de Campismo de Odeceixe, que por sinal tem muito boas condições (tudo novinho), e do qual eu era o único utilizador, o que é uma coisa que não me desagrada de todo. Fiz café e depois andei por ali a cirandar e a arrumar os tarecos até estar pronto para me fazer ao caminho. Já o Humberto me tinha avisado que para sair dali teria de enfrentar uma subida que me faria ter saudades da de Miraflores.

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Algo me dizia que não seria bem assim, logo para começar, no café de São Miguel, o rádio começou a tocar Good Vibrations, dos Beach Boys, como é que algo poderia correr mal?

Fiz essa subida e a descida a seguir, e mais outra, e mais outra, e outra… algo que se aprende à nossa própria custa é a dosear o esforço e ainda não encontrei  nenhuma subida que não oferecesse a seguir, como recompensa, uma descida que é sempre um alívio e um prazer enorme. O contrário também é verdade e suponho que isto se aplique a tudo na vida.

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(Acabo de me recordar de que para Portugal, enquanto nação, o percurso actual parece ser uma subida imensa, só que, em vez de a seguir haver uma descida, existe, ao invés, uma queda)

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Parei no Rogil (já sem corta vento nem boné) para comprar pão e fiquei admirado. O que há mais de  vinte anos era uma modesta padaria é agora um estabelecimento moderno sem lugar a balcões de mármore. Seja como for, o pão continua do melhor e ainda tem umas empadas de espinafres e cogumelos que são de se lhe tirar o chapéu.

E depois fui andando, passei Aljezur sem parar na vila, tampouco me deixei tentar pelo Vale da Telha ou pela Arrifana, fui parando aqui e ali, cruzei-me com mais um casal a viajar do mesmo modo que eu, eram alemães e novamente trocámos saudações e sorrisos, eles a descer e eu a subir.

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É um percurso que recomendo vivamente e que acho que está ao alcance de qualquer pessoa com o mínimo de preparação física. Como dizia o cego:  isto só visto, contado não tem graça nenhuma.

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Dum momento para o outro, suponho que no Parque Eólico da Lagoa Funda, deixa de se estar rodeado pela mata e entra-se numa paisagem bonita mas agreste; sem árvores, só estevas, tojos, arbustos e um cheiro muito particular, misturado com o vento onde já cheira a mar.

De súbito, eis o Atlântico à minha frente, o fim da serra e da terra.

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Decidi ir para o parque de Campismo da Orbitur, entre Sagres e o Cabo de São Vicente, e foi uma excelente escolha.

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Logo à entrada um pormenor: folhas de papel afixadas com a previsão meteorológica do Windguru.com e do IPMA. Estava quase vazio e, como em muitos, os serviços estavam reduzidos ao mínimo. No entanto, na recepção pode-se beber café e existem produtos indispensáveis à venda, nestes últimos optei, claro, pelo mais premente.

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As ervilhas com chouriço alentejano foram do melhor. Enquanto as ervilhas apuravam naquele meu fiel fogão, um casal de holandeses que já me tinham cumprimentado discretamente, veio falar comigo. Falaram-me em holandês, convictos de que se tratava de um compatriota e, após esclarecermos esse ponto, mostraram-se espantados. Foram para aí quinze minutos de conversa muito agradável. Estavam muito interessados na minha forma de viajar e queriam saber se era muito difícil. Depois de falar sobre mim, perguntei-lhes o usual. Estavam a adorar as pessoas e a comida. Vinham horrorizados com a costa sul de Espanha. Tinham estado em Portimão e, como é óbvio, não tinham gostado. Depois tinham fugido em direcção a Beja, que acharam ser uma cidade muito estragada por via de edifícios novos e muito feios, já Évora consideraram-na uma cidade lindíssima. Depois desceram a costa Alentejana até Sagres, no mesmo percurso que eu, e aí ficaram deliciados.

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A senhora, já reformada, parecia uma criança feliz ao falar sobre as aves, principalmente as cegonhas, que ela uma vez tinha visto na televisão, e o marido, que falava pior o inglês, sorria muito e confirmava vigorosamente acenando com a cabeça. Foi um momento muito engraçado e durou, ervilhisticamente falando, o tempo certo. Partiram hoje rumo a Portalegre e seguiriam para o nordeste transmontano.

E eu, depois duma, mais uma, noite muito bem dormida, bebi café e fui andar de bicicleta (sem carga) até ao Cabo de São Vicente.

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Exceptuando chegar lá e ouvir, num rádio aos gritos, o discurso desse infeliz que é ministro das Finanças, foi mesmo muito bom.

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É uma zona tão especial que andei por ali até entortar o caminho… (nem sei como é que isto aconteceu)

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E no regresso, vim a admirar aquilo a que nós, Portugueses, chamamos uma ciclovia. Espero que estes lorpas gordos e luzidios que nos governam não tenham apresentado isto a ninguém como tal…

Apresento-vos o início da Eurovelo 1
2013-03-14 09.59.24…e depois segue assim, imponente e segura, até parte do caminho para Vila do Bispo

2013-03-14 14.28.17E depois lá se convence da parvoíce que é, e desaparece simplesmente. Mas antes, nesta obra de arte, que é três em uma: ciclovia, passeio e berma, lá acabei por empenar a roda traseira que espero reparar amanhã em Lagos.

Acabei por vir aterrar ao parque de campismo Turiscampo, numa atitude algo irreflectida que me custa dezoito euros para passar a noite, mais do dobro do mais caro parque que experimentei até agora. Isso explica os equipamentos de luxo; balneários impecáveis, com sabonete liquido e papel higiénico, água quente em todas as torneiras, duche para animais de estimação, carrinhos de golfe, etc, etc. A proximidade da estrada, EN125, com muito trânsito e o desenho do parque, todo loteado ao pormenor fazem com esteja aflito para me raspar para o interior.

Ah, este pode ser considerado um ponto forte deste parque…

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É isto o que se quer…

March 13, 2013

A noite que passou, enquanto dormia, fui roubado.

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Nada como começar assim para despertar a atenção do leitor. Sosseguem, o que aconteceu foi que no parque de campismo de Vila Nova de Milfontes encontrei ontem um gato esticado a apanhar uma réstea de sol. Um gato velho, originalmente branco mas agora encardido, rameloso e feio, mas simpático. Chamei-o, levantou-se com um miado rouco e aceitou as festas que lhe dei. Entretanto ontem à noite fui dormir pensando que as quatro fatias de bacon, que tinha num saco de plástico, iriam ser um pequeno almoço triunfante. Sonhei ter ouvido o barulho dum saco de plástico durante a noite, julguei que era o vento… hoje estava o saco rasgado e o bacon. Viste-lo? Ri-me enquanto trincava uma sanduíche de tomate com o café.

Entretanto tinha aproveitado o dia de ontem para passear e para ir despachar umas coisas pelo correio, bagagem a mais. Fiquei contente quando, nos CTT, vi que me ia aliviar de  quase dois quilos e meio, e com pena de ver o livro do Peter Atkins ir embora.

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Vila Nova de Milfontes é bonita, também a Zambujeira do Mar, e a Azenha do Mar, e por aí fora, mas chateia-me ver tantas lojas fechadas, casas que só servem no Verão e um ou outro habitante, parecem quase aldeias fantasmas. Por contraste, o Cercal, mais longe da costa poucos quilómetros, é uma terra cheia de vida.

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Hoje de manhã consegui arrumar ainda melhor a bagagem, comprimindo o saco cama ao máximo. Futuras aquisições passarão, sem dúvida, por algum equipamento mais leve e mais comprimível.

E lá arranquei hoje de manhã, com sol e, pela primeira vez, com o vento pelas costas. Uma nortada gelada mas muito amiga nas longas rectas alentejanas.

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Desviei para ir ver o Brejão, da Carla e do Humberto, e ainda considerei pernoitar no camping do Monte Carvalhal da Rocha, mas estive cerca de vinte minutos à espera e nada. Mais um sítio fantasma… e, assim como assim, ainda era cedo, as pernas ainda estavam boas e lá fui eu, por uma estrada merdosa (o que faz toda a diferença) até encontrar uma boa alma num tractor. Era um homem como até hoje só vi outros dois (o Cabo Electricista Ricardo e um chamado Alcobia, acho eu, que matava e desmontava animais), este, como os outros, era de uma tez vermelha tão carregada, sanguínea, com os olhos injectados, que parecia que ia literalmente rebentar a qualquer instante. Mas não rebentou e indicou-me um caminho fácil que me trouxe sempre a descer, ó alegria, até este parque, o Camping São Miguel, que me parece muito bom.

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Foi uma etapa muito, mas muito agradável, cerca de oitenta quilómetros,  sempre a aviar, parando para café e cigarro, sem ficar derreado como sucedeu nos dois primeiros dias.

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Daqui a pouco vou jantar (bem) e a seguir dormir, para banda sonora, hoje não há vento nem mar, há rãs e os chocalhos das vacas.

 

Do granizo ao sorriso…

March 11, 2013

Dizia o Jorge Castro no outro dia que só quem desce a rua de bicicleta percebe porque é que os cães gostam de andar de carro com a cabeça de fora.

Digo eu, só quem acampa em época baixa é que percebe o prazer dos cães ao irem dar uma mija no campo ao nascer do dia.

Após uma noite chuvosa o dia  nasceu limpo. Fiz café, arejei o saco cama, reparei, espero que definitivamente, o selector de mudanças dianteiras e quando já estava pronto para arrumar a trouxa e zarpar, vejo um clarão seguido de um trovão e eis que…

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Depois de ter ficado impressionado com a chuvada/granizada, ri-me e fiz outro café. Aparentemente a bicicleta ficou boa e, como todo o dia foi intermitente no que diz respeito a chuva, acabei por ficar aqui mais um dia. Fiz o almoço e a seguir estive a ler e a ver a nova versão de Kon-Tiki, antes de me regalar com uma sesta.

Não chamem, por favor, a estas minhas férias uma aventura. Isto é divertimento, passeio, vadiagem… talvez tenha um gostinho a aventura, mas muito ténue… olhando então para tantos outros.

Desde miúdo que conheço, por existir lá em casa o livro, A Expedição Kon-Tiki, também já tinha visto o filme original e julguei que ia ficar decepcionado com esta nova versão, ao invés, gostei bastante. Aventura é aquilo 🙂

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Entretanto ontem deixei-me dormir antes de publicar qualquer coisa e hoje de manhã, não obstante a chuva, fui arrumando as coisas devagar e acabei por arrancar num intervalo sem chuva e vim seco até Vila Nova de Milfontes onde já tenho o estaminé montado.

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Passei no Cercal, terra simpática onde estive a beber café e a trincar um bolo de batata doce que acabou por me servir de almoço. Lá cruzei-me com um casal de jovens alemães que seguiam nos mesmo moldes que eu. Sorriram e ele disse-me um bom dia quase incompreensível, que devolvi, arriscando um Tschüss, já lá atrás ouvi em coro: Auf wiedersehen.

Foi um momento engraçado. Uma coisa é certa, a bicicleta é algo que gera simpatia e eu gosto de imaginar que o meu sorriso era tão bom de se ver como o deles.

Desde que parti, este foi o melhor dia de pedalanço, calmo, sem avarias, sem a dor nos ombros dar qualquer sinal, uma maravilha. Embora o vento tenha rodado de sul para oeste, continua a dar-me que fazer.

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Quando aqui cheguei fiquei um pouco contrariado pois podia muito bem ter ido até mais abaixo, mais trinta até ao ZMar não teria sido nada demais, mas agora que estou instalado acho que até não foi nada má ideia.

Daqui a pouco vou fazer qualquer coisa para dar ao fanfam, mas, entretanto, vou à Vila ver as vistas.